segunda-feira, 1 de junho de 2009

A ESCOLÁSTICA FERIDA

A ESCOLÁSTICA FERIDA
Maio 2009

Paulo Matos (*)



Nos 109 anos do desaparecimento de João Otávio dos Santos, neste 9 de julho, o seu sonho e desejo, que fez construir em concreto e arte – o Instituto de Educação Dona Escolástica Rosa – merece resgate, o de suas crianças. Escolástica era o nome de sua mãe e visava a promoção de sua condição primitiva, homem de raízes – a de menino pobre. Ele deixou seus numerosos imóveis para que a Santa Casa, a qual dedicou sua vida, os administrasse em prol do Escolástica. E isso não se fez.

O Instituto fora cuidadosamente erigido pelo amigo e testamenteiro Júlio Conceição, o notável socialista e criador do Parque Indígena. Para as crianças pobres – como a que um dia foi Otávio -, lhes dando formação e abrigo. Mas isto não se consumou, exigindo-se, por dever moral e legal, o pleno cumprimento de sua herança expressa. Uma vontade coletiva que inexiste hoje e que necessita ser argüida, no ser degradado pelo sistema econômico do consumo e da propriedade sagrada.

A Santa Casa, sonho de Isabel, a rainha e santa padroeira, por equívoco histórico incorporou o patrimônio lhe conferido para administrar. E cedeu ao Estado a gestão do Escolástica – que eliminou os cursos inerentes à sua natureza essencial e determina sua atuação, alterando os fins colimados na intenção post-mortem.

De humilde origem, Otávio não se perverteu na riqueza: e na antevisão dos contingentes abandonados multiplicados, projetou e viabilizou o Escolástica. Não esperava, porém, que o núcleo, construído no espaço de sua chácara na Ponta da Praia e finalizado em 1907, tivesse esse destino, desatino.

Nascido em oito de março de 1830, há longínquos 170 anos, menino pobre trabalhador, João Otávio se tornou comerciante e proprietário de inúmeros imóveis na cidade. Caridoso, irmão da Santa Casa desde 18 anos, foi seu maior provedor, de 1875 a 1878 durante 16 anos, também de 1883 a 1896. Manteve a instituição na dificuldade, fez doações, como as ações do Teatro Guarany. Abolicionista, solteiro, tinha na Santa Casa sua filha predileta, dizia.

João Otávio confiou a Santa Casa administrar o que conquistou e devolveu à comunidade que o abrigara. A Prefeitura não paga à instituição o estabelecido em lei: esta também não foi leal com Otávio. Desde sua morte, observe-se: Conceição descreve as dificuldades impostas pela instituição para locar os despojos do antigo dirigente e benfeitor, no livro que escreveu sobre o processo em que, como testamenteiro, cumpriu a tarefa de perenizar a vontade desse Otávio.

Otávio alforriou escravos do próprio bolso, ajudou a manter o Quilombo do Jabaquara, abriu as portas de sua chácara para os cativos na cidade libertária - território livre dos escravos, como era conhecida. Vereador e presidente da Câmara, o foi no Império (1876 a 1880) e na República (1892/3). Deixou escrito: o Escolástica serviria para dar Educação intelectual e profissional de meninos pobres, em princípios pré-vocacionais.

A Escolástica era seu sonho, que por sua nobreza e altruísmo devemos resgatar, em respeito e homenagem à visão social ampla de João Otávio. A rua que o homenageia degradou-se socialmente. Não deixemos que tal ocorra com o que pretendeu perpetuar.



(*) PAULO MATOS - Jornalista, historiador pós-graduado e bacharel em Direito jornalistapaulomatos@yahoo.com.br
Blog: http://jornalsantoshistoriapaulomatos.blogspot.comFone (13) 97014788

SOCIALISMO E FUTURO

SOCIALISMO E FUTURO

Paulo Matos (*)

A cidade de Santos tem história no movimento socialista brasileiro, registrada com Silvério Fontes, o pai do poeta Martins Fontes, que fez parte da fundação do Partido Socialista Brasileiro em São Paulo no início do século XX.

Mas antes, no final do século XIX, fundou aqui aquele que é considerado o primeiro circulo socialista brasileiro, o Centro Socialista de Santos – junto com o professor Carlos Escobar e o também médico Raimundo Sóter de Araújo. Era um socialismo acadêmico, evolucionista, que queria o futuro.

Sim, porque Silvério Martins Fontes, o pai do poeta José Martins Fontes, foi o pioneiro do socialismo no Brasil – que expunha teoricamente em palestras feitas em saraus e bibliotecas e fazia o jornal “A Questão Social”. Sergipano, também foi abolicionista e inovador na Medicina, trazendo para cá as teorias de Pasteur, a microbiologia. A ciência abrigando o conhecimento para o presente desenhando o futuro.

O ano do reagrupamento do socialismo brasileiro chegou em 1947, quando o Partido da Esquerda Democrática se transforma no PSB. E tem uma marca, derivada de seu rompimento com a UDN, que reunia a oposição à Ditadura Vargas: os grupos de base, que deveriam discutir os princípios e ações do partido.

São do PSB os iniciadores da luta “O Petróleo é nosso”. Em 1952, João Mangabeira é o candidato à Presidente da República, com pequena expressão eleitoral, mas marcando posição crítica ao getulismo e ao udenismo. Daí, as alianças foram com o PCB e o PTB, crescendo eleitoralmente pela esquerda. Com Miguel Arraes no Pernambuco, prefeito de Recife e depois governador, surge o educador Paulo Freire, entre os grandes nomes do PSB no Brasil, onde o Partido tem futuro e compromisso.


(*) PAULO MATOS - Jornalista, historiador pós-graduado e bacharel em Direito jornalistapaulomatos@yahoo.com.br
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quarta-feira, 20 de maio de 2009

PELA APROVAÇÃO DA PEC DOS VEREADORES

VEREADORES, JUSTIÇA E DIREITOS
PELA LEGALIDADE NA VOTAÇÃO DA PEC
PELA APROVAÇÃO DO RECURSO 240 NA CÂMARA
Paulo Matos (*)
Maio 09

É preciso que a Câmara vote o Recurso 240, o que obriga votação da PEC dos Vereadores. É o Projeto de Emenda Constitucional que devolve o número de legisladores municipais, base parlamentar do país, em número anterior à medida arbitrária e ilegal de reduzi-los em uma suposta “proporcionalidade” – necessária, mas tomada por quem não tinha competência e nem autoridade para isso.

O fatiamento da PEC em plenário, com votação em separado dos Artigos 1º e 2º - composição das Câmaras e orçamentos - é legal, lógico e claro para o caso. Ele permite a aprovação do que é consensual - o que tem sido comum nas casas. Nenhum fator externo pode impedir isso: o fortalecimento do legislativo é um avanço democrático, deposta a Idéia imperial. Tem tons de avanço social.

O Recurso 240 recorre contra a decisão da Presidência que indeferiu a Questão de Ordem número 392, de 2009. Era a promulgação da Proposta de Emenda à Constituição número 333, de 2004 (então a PEC dos Vereadores) – que impediu. O autor do Recurso 240 é o deputado Arnaldo Faria de Sá, seu relator o deputado Flávio Dino.

A estas alturas, ligar para 0800-619619 (Alô Câmara) e pedir aos deputados aprovação do Recurso 240 é de bom alvitre. Isto para quem quer esquecer-se da fase dos golpes contra a legalidade, cujo gosto amargo se faz sentir logo: fazem mal à saúde!

Aprovado pela CCJ no dia 01 de abril, o Recurso 240 de 2009 teve seu parecer publicado no Diário da Câmara dos Deputados no dia 07/04. Na prática, esse recurso obriga o Presidente Michel Temer a promulgar a PEC 20 de 2008. Se levarem o caso a diante, impedindo a votação, os membros da Mesa Diretora poderão ser enquadrados na quebra de decoro parlamentar.

Após aprovada na Câmara, a PEC dos Vereadores, então número 333, de 2004, sofreu desmembramento no Senado e foi alijada de sua essência com promulgação de apenas uma parte de sua formulação. O Artigo 1º, que amplia o número de vereadores, foi promulgado, mas vedado por questões de redação o Artigo 2º, dos orçamentos legislativos – posto que de fato se impediria seu funcionamento autônomo, como preceitua a Lei Maior.

Isto foi feito quando da votação das Propostas de Emenda à Constituição números 29, de 2000 (a Reforma do Judiciário). E 67, a Reforma da Previdência. Assim como a 74 (Reforma Tributária) e a 77- A, de 2003, a chamada “PEC paralela” da Reforma da Previdência. Vale comentar que esse tipo de procedimento já foi debatido pelo Supremo Tribunal Federal, quando do julgamento das Ações Diretas de Inconstitucionalidade números 2.031 e 3.472, e considerado totalmente constitucional.

Assim, com esse procedimento, iremos aprimorar a representação popular na base da democracia brasileira, sem gerar qualquer aumento de despesa, uma vez que os limites hoje vigentes, constantes do art. 29-A da Constituição, permanecerão com plena eficácia, independentemente da alteração do número de vereadores que for eventualmente gerada.

Faz bem para a uma política saudável manter esta prática na seara dos Legislativos. Os que foram eleitos pelo povo devem ter prioridade na posse sobre os nomeados à revelia do voto e estes já são dezenas de milhares – 46 mil, mais a multiplicação de 16 para 41 ministérios no âmbito executivo: que uns predominem sobre os outros, os eleitos sobre os guardas de quarteirão.

O artigo 55 da Constituição Federal está deixando os deputados alertas contra possíveis infrações legais, pois a não promulgação da PEC 20 de 2008 pode ser considerada quebra de decoro parlamentar. O Parágrafo 1º do Artigo 55 da CF prevê a perda do mandato ao Deputado ou Senador que abuse das prerrogativas do cargo.

A aprovação da PEC vai impedir que, mais uma vez, o Judiciário faça às vezes do Legislativo, rebaixando-o. A cassação dos eleitos no pleito recente – quando concorreram, as vagas existiam - em face da redução do número de cadeiras é avessa ao Direito adquirido e rompe com princípios do Direito. Que se façam as reformas políticas de maneira direta e clara, nos fóruns legais, não através de amputações indiretas e atrabiliárias à guisa de regulamentações.

Sob o medo da quebra de decoro, a aprovação da PEC 20/2008 é uma resultante da interpretação jurídica translúcida do Artigo 55 da Constituição federal. O posicionamento dos legalistas do Movimento pela Recomposição das Câmaras, o MORECAM, é de que se realmente a nossa Constituição Federal tem valor, a PEC 20 de 2008 – dos vereadores - vai ser promulgada.

“O artigo 55 da Constituição Federal merece nossa reflexão em relação a não promulgação da PEC 20 de 2008 e esse desrespeito que vem sendo cometido por aqueles que deveriam fazer valer o nosso ordenamento jurídico. Esperamos com agora o Presidente Michel Temer não encontre mais desculpas para não promulgar a PEC ou se preferir colocar em votação urgente o Recurso 240 de 2009”.

Defender a legalidade faz bem á saúde. E não se comprometer com atos atrabiliários e legais preserva o ar das impurezas. Os Senadores carregam esta responsabilidade.

(*) PAULO MATOS - Jornalista, historiador pós-graduado e bacharel em Direito - jornalistapaulomatos@yahoo.com.br
Blog: http://jornalsantoshistoriapaulomatos.blogspot.com
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ALERTA PARA A VIOLÊNCIA

ALERTA PARA A VIOLÊNCIA
DE EUCLIDES E CANUDOS

Paulo Matos (*)

Maio 2009

A reportagem sobre a já denominada “Guerra de maio em SP”, no início da noite desta quarta-feira - 13 de maio da Abolição, das flores e casamentos -, reportou uma rebelião popular contra a prisão de jovens adolescentes supostamente traficantes. E pela reação deu sinais, que recordam Canudos e Euclides da Cunha, desta crescente de violência. Quo vadis? Para onde vais, criando guetos miseráveis e resistentes, ó sociedade? Com o crescimento da exclusão social, eles tendem a se expandir. E agora?

Bandos incendiaram ônibus, caminhões e rede elétrica em diversos pontos na Zona Leste da Capital paulistana. Detalhe da reportagem é que ela foi narrada de um lado só – o que já é parte do problema -, sem identificar seus motivos na fonte. Eles estavam errados e pronto: ficamos ignorantes de suas causas, dos que nunca tem voz e nem tiveram. Seria esta uma das matizes históricas de suas ações? Refletir é bom. Pensar não dói, sem medo.

Mas as dimensões e prejuízos do evento assustaram e pedem reflexões mais inteligentes e mais urgentes, sem raciocínios estanques ou maniqueístas. É preciso atentar que não basta uma visão nem uma análise parcial do fato, bandidos versus mocinhos e entender a questão como um fenômeno social indicador de rumo, que é preciso modificar.

Mas se a cobertura parcial é questão de jornalismo, lembremos que já há mais de um século Euclides da Cunha escapou dela, amadurecendo no seu transcurso ao discorrer a Guerra de Canudos. Euclides compreendeu o conflito (1893-1897) em sua essência e o denunciou ao mundo, há cento e sete anos em “Os sertões”, alterando o rígido discurso positivista no discorrer da narrativa.

Não desejamos tanto: sabemos que emburricamos, com as máquinas advertidas por Chaplin. Para dizer o menos, como naquela máquina inventada pelo personagem do filme de Alberto Cavalcanti, “Simão, o caolho”, de uns 50 anos atrás. Atentemos para a questão social e observarmos que a questão do conflito está entrando em uma fase perigosa. E que não basta a repressão cada vez mais incisiva da PM para resolvê-lo - cujos procedimentos precisam ser questionados, pois que indutores de reações violentas e prenunciadoras do caos.

Não adianta os apresentadores de programas populares ficarem elogiando a ação policial, que a característica de acirramento do conflito pelos seus procedimentos não se afasta e o divórcio se consagra. As crianças crescem com medo. Mas o que fazer diante de ações ousadas “do outro lado”, se é que ele existe e se temos autoridade para fazer esta divisão como um bolo de fubá, como esta – endossando as ações sem conhecê-las e tomando partido igual jogo de futebol?

Por que deixamos a situação chegar neste ponto? Ela não chegou a isso sozinha, se há tráfico há consumidores e um mercado de trabalho carente a filiar-se. E se há consumo há um quadro social que o alimenta, na busca da satisfação de ilusões consumistas plantadas e negadas, nas diferenças sociais acirradas pela propaganda que atinge os centros de desejo.

Não será através do cassetete e no tiro a solução, complexa. Alerta, pois a coisa não é assim tão simples. Isto está aqui e em todo o mundo. É preciso amenizar o conflito e amaciar a relação da polícia com o povo – ou a guerra terá contornos cada vez mais graves. Não bastam metralhadoras, bombas de gás, choques elétricos, balas de borracha, desfiles de viaturas, demonstrações de força. Não bastam civis vestidos de militares em clima de guerra. É preciso incorporar professores e intelectuais junto com sociólogos nessa análise em busca de soluções ou caminharemos, como caminhamos céleres, para o caos. Alerta.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A HOMENAGEM NECESSÁRIA A JANSSEN CAVALCANTE

A HOMENAGEM NECESSÁRIA A JANSSEN CAVALCANTE
ABRIL DE 2009

Senhores:
A homenagem que devemos prestar ao cidadão e homem do teatro Janssen Cavalcante, que nos deixou e ao mundo físico nesta segunda-feira quatro de abril de 2009, é a leitura mais atenta de suas mensagens-denúncias que, nas suas linhas e entrelinhas, revelam conteúdo importante de dedicação à cidade e à sociedade.

Que o façam os múltiplos setores que as receberam para que não carreguem futuramente as culpas de não ter atentado a elas, envoltas em simbolismos, mas repletas de verdade e convicção coletiva, formando a lado dos que abrem o cenário de luz com as suas ousadias - que ele continuará a lançar sobre as consciências coletivas de todos nós.

Que sua partida não seja sinal dos tempos e do final dos cavaleiros andantes de nossa era e que Jessem siga na cavalgada heróica pelo aperfeiçoamento das relações humanas.

(*) PAULO MATOS - Jornalista, historiador pós-graduado e bacharel em Direito - jornalistapaulomatos@yahoo.com.br
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MAIO, MAURICE, ROITMANN - Ideologia Humana

MAIO, MAURICE, ROITMANN
Ideologia Humana

Paulo Matos (*)



“Pensar dói?” O autor da frase se foi em um 25 de maio, há uma dúzia de anos. Desde então, não mais convivemos com Maurice Armand Marius Legeard, o cinéfilo e intelectual francês-santista do cinema, que se foi quando tinha 72 – ou seis dúzias de anos. Era pouco. Também nascido em maio, dia 1º, no histórico ano de 1917, o sindicalista Leonardo Roitmann – seres mágicos que a geração iluminista de 1947 nos deixou para o 1968 da Ponderosa e do cais - heróis dos tempos modernos e militantes que qualificam este maio operário de tantas glórias e sacrifícios heróicos como eles.

São estes que queremos homenagear com uma Praça, criando referências, por seu significado histórico que traz a identidade da cidade sindical, cultural, solidária, combativa. Roitmann se foi às vésperas da Caravana da Autonomia que ajudou a organizar em 1983, já com 66 anos – ele que não deixaram ser prefeito em 1948, cassando nossos direitos de elegê-lo, vereador mais votado da história que não deixaram assumir - covardes.

Maurice durante quase meio século promoveu a cultura cinematográfica e social na cidade – e com ela a elevação e a enlevação dos níveis de consciência - para a que trouxe o que de melhor a sétima arte construiu desde que os irmãos Lumiére a criaram no final do século XIX. Por ele, Santos teve um dos primeiros Clubes de Cinema do Brasil e foi vanguarda na cinematografia brasileira.

O francês santista nasceu nos arredores de Paris em nove de abril de 1925 e veio ainda pequeno para cá, com seis anos. Amigo e companheiro da jornalista e intelectual Patrícia Galvão, que hoje dá nome ao nosso teatro municipal, da intelectualidade que renascia no pós-guerra, foi um dos motores desse renascimento ideológico - livre-pensador e combatente social, aliado do poeta Narciso de Andrade e da juventude militante que éramos.

O filho de Mauricette e Emile era, como Patrícia Galvão, o militante do ideal, como era chamada a atriz e revolucionária. Ele educou gerações com o melhor cinema, colocado à margem pela estrutura comercial da área - o chamado cinema de arte - tendo sido o criador no Brasil da sessão da meia-noite, no cine Roxy. Campos, o cap dos cinemas, dono da rede, sabia da importância da cultura cinematográfica e cedia a sala para sua expansão, que se fez.

Rapazote, funcionário do Expresso Luxo, Maurice se integrou ao grupo que, em 16 de outubro de 1948, havia fundado o Clube de Cinema de Santos. Segundo Maurice, uma das primeiras expressões do movimento cineclubista brasileiro, logo após o surgimento de entidade similar no Rio de Janeiro - integrado pelo poeta e diplomata Vinícius de Moraes. Secretário do cônsul francês e funcionário da Associação Franco-Brasileira, amante e profissional da fotografia, no entrosamento com a intelectualidade que renascia, resultaria o introdutor cultural da nova linguagem.

Maurice, o Gurú dos Gurís, como foi chamado no curta-metragem rodado sobre ele nos anos 80, foi companheiro de Roldão Mendes Rosa (o sócio número 1 do CCS), na equipe de Rubens de Ulhoa Cintra, Gastão Frazão, Nelson e Armando Sá, entre outros. Contemporâneo de Plínio Marcos e de Gilberto Mendes, a partir de 1954 passaria a dirigir o Clube de Cinema sozinho, morando junto. O que fez até os anos 80, quando se afastaria para fundar a Cinemateca de Santos - em janeiro de 1981.

Na sede, um acervo de quase mil filmes de arte em vídeo, livros, arquivos jornalísticos de atores, diretores, técnicos, coletados diariamente durante décadas e cuidadosamente fichados, mais de cinco mil filmes selecionados em arquivo. Tem também e desenhos do artista-irmão da caminhada cinematográfica nas últimas quatro décadas, Miro - quem elaborava os geniais cartazes dos filmes apresentados nas sessões, em obras marcantes.

Cronista do jornal Hora Santista, Maurice recebeu mensagem de Charles Chaplin no final dos anos 60, através do cartunista Dino. Fio condutor de concepções libertárias, que abriu novas etapas no pensamento de tantas gerações, agente do progresso e da civilização do amanhã, era o chapinha das madrugadas - que nunca mais serão as mesmas sem a força de sua contradição, lançada sempre em busca da lucidez.

Sua mensagem não se incendeia como a película de Persona, o filme de Bergmann, mas permanece nas sínteses devassáveis, frondosas e acessíveis e sensíveis deste menestrel dos celulóides. Ousado e luminoso como Weles, Maurice não tergiversou como Kane, perenizando seu “rosebud”, que balbucia Kane, como Spártacus e Os Companheiros. Esse tigre feroz das madrugadas - como o descreveu o poeta e amigo Narciso de Andrade -, não briga mais, deixando livres os algozes da inteligência e da compreensão da sociedade coletiva, com diz seu poema:

“Tigre feroz das madrugadas, Maurice não briga mais. Podeis passar levianos, com vossos passos melífluos, Maurice não briga mais. A cidade está tranqüila, na Conde D’Eu e no Outeiro, nas catacumbas do Itararé, nos antros podres do Gonzaga. Maurice não briga mais. Podeis acordar mais tarde, habitantes da grande noite, damas das vielas e das esquinas, frágeis infantes das calçadas, Maurice não briga mais.

Este é o recado que traz o vento frio da madrugada, da madrugada rubra do cais - Maurice não briga mais. Catraieiros do mercado, que levais vossas catraias, ao outro lado do estuário, sem temor da cerração, Maurice não briga mais. Proprietários dos botecos, deixais vossas portas abertas, servi vosso conhaque nas mesas, liberai o papo franco pelas manobras do álcool, Maurice não briga mais. Kurosawa, Bergmann, Fellini, que tristeza, que tristeza, Maurice não briga mais...

(*) PAULO MATOS - Jornalista, historiador pós-graduado e bacharel em Direito - jornalistapaulomatos@yahoo.com.br
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A MÃE-CIDADE, COM ALMA, CIÊNCIA E TECNOLOGIA

A MÃE-CIDADE, COM ALMA, CIÊNCIA E TECNOLOGIA
Paulo Matos (*)

Como defensores da cidade – a alma e a mãe de seus cidadãos - e de seu progresso intelectual, científico e tecnológico, devemos uma manifestação de apoio à criação da Secretaria Municipal de Ciência e Tecnologia. Que aqui terá, como na sua feição nacional, a direção do PSB por um seu vereador - militante da área, acadêmico e mestre, como já indicou o prefeito para que a cidade avance.

É o que enseja o prefeito João Paulo Papa, que esta semana vai dar posse ao Conselho Curador da Fundação de Tecnologia e Conhecimento de Santos, instrumento paralelo de sua atuação na cidade que se projeta petrolífera ao mundo. E que quer harmonizar-se com esta produção e colocá-la a serviço de nossa gente. É do PSB, que tem o ministro da pasta Sérgio Rezende, a missão nacional dessa modernidade – com Márcio França, Ciro Gomes e forte companhia.

A iniciativa da criação pelo prefeito João Paulo Papa da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Município, isto em plena crise econômica, reveste-se das características de uma identidade superior no trato com a coisa pública. Na medida em que tem seu objetivo central na reversão dos fatos que cercam a economia mundial e, por decorrência, nacional. É uma visão de estadista e mostra visão do dirigente municipal. E confere visão negocial e pública a esse titular, revelando juventude e ousadia.

Crise e solução são expressões parceiras em seu significado de abandono às condições existentes e ingresso em novos patamares. Como uma das primeiras cidades brasileiras a embarcar nesta perspectiva. O que será feito pelas demais com certeza se não quiserem ficar de fora desta imensa onda. A companhia da Fundação, formada em paralelo, tem papel fundamental neste avanço, captando e absorvendo inovações – na exigência do compartilhamento democrático.

O Brasil se credencia neste ambiente como potencial candidato não só a primeiro superar a crise, como a revertê-la, na nova ordem que a sucederá obrigatoriamente de novas relações e produtos. Que reúne a produção ecológica e sustentável, possível na terra escolhida repleta de sol e terra para produzir energia, rios e mares abundantes. Isto sem contar as terras férteis, ventos para a maior produção eólica do planeta e um imenso mar produtor.

O Brasil tem condições plenas de produção de energia renovável e sem carbono, exigível em nossos tempos de aquecimento global. É neste sinal que o dirigente municipal embarca na estratégia do Governo federal e do mundo. E avaliza o setor como gerador de progresso e desenvolvimento, além de atrair verbas que, sem ela, não teriam como vir para ampliar centros de ensino e gerar negócios para sua gente.

Ao contrário de desaconselhar a introdução de um novo órgão na administração pública, a crise aponta para a necessidade de otimização dos recursos existentes nos serviços públicos e nos equipamentos municipais. Ampliando as condições existentes com economia de gastos. Inúmeras práticas vão poder modernizar de fato – e não apenas racionalizar – toda a estrutura administrativa recompondo-a como incentivadora de iniciativas de negócios que resultam em benefícios à população.

A Ciência e a Tecnologia ensinam que o crescimento inexorável não pode ser feito à custa da redução de direitos de conforto popular em seu meio e este deve ser um dos principais - senão o principal - dos objetivos de sua aplicação, para evoluir a convivência social. “Problema” e “solução”, concomitantes, traduzem a palavra “crise”, do chinês. É esta sua hora para evoluir.

Evoluir como no aproveitamento de materiais recicláveis, ampliando a renda de setores excluídos para os que se buscam soluções humanas, reduzindo os espaços de depósito de lixo, economizando recursos terrestres. No transporte coletivo, na geração de empregos, no atendimento médico, na educação de nossas crianças, na limpeza, no aperfeiçoamento das escolas e policlínicas, enfim – na construção de casas e na eliminação das desigualdades, na evolução permanente – no progresso social.

O momento da crise, enfim, é o momento da oportunidade, enfim, como explica a Teoria Construtivista: o individuo passa por várias crises desde os seus primeiros dias de vida até ao final da adolescência e nelas se forma e se completa.

Logo, a crise é positiva e maturativa, proporciona aprendizagem e evolução. E é nessa perspectiva que o prefeito João Paulo Papa, neste momento, utiliza o conhecimento para entrar na história como o prefeito que não passa ao léu das amplas condições que Santos oferece, como um dos melhores lugares do país para se viver e com história e natureza para justificá-lo.

(*) PAULO MATOS - Jornalista, historiador pós-graduado e bacharel em Direito - jornalistapaulomatos@yahoo.com.br
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sexta-feira, 1 de maio de 2009

OS 100 ANOS DO BONDE DA HISTÓRIA

OS 100 ANOS DO BONDE DA HISTÓRIA
Saudade Social - I
PAULO MATOS (*)

Na comemoração do centenário do bonde elétrico em Santos neste abril/28, a que antecedeu em 38 anos os bondes puxados à burro, é nosso dever reverenciar esta memória. A passagem de um século desde a chegada dos bondes a Santos tem uma história não apenas saudosista, mas política e administrativa, que escrevemos há 22 anos. É sobre o retrocesso no trato com a coisa pública que significou a retirada dos bondes de circulação e esta é a verdade popular.

A elevação dos sistemas de transporte coletivo, obrigatória com a expansão a cidade com a instalação dos bondes elétricos, em 1909. se reverteu com sua retirada e precarização da qualidade de vida - quando se impôs sua retirada em favor do obscuro lobby do petróleo e da borracha, transformado em fonte de lucro e altos vôos, encarecendo o sistema.

Mas os bondes estão de volta, sabe-se difícil ou impossível na forma em que vieram, deslocadores de grandes massas populares nos estribos, hoje comprimidas e em pé em veículos insuportáveis que atravancam as ruas. Agora, os bondes são “turísticos”, apenas. E a saudade de sua volta é social, pelo bem que faziam às pessoas.

Escrevo como amante do transporte coletivo, de sua importância para a vida dos cidadãos, que no transporte agravam suas condições de vida. E como autor do livro “Transporte Coletivo em Santos, história e regeneração”, escrito junto com o historiador Ricardo Evaristo dos Santos e publicado em 1987, na gestão do prefeito Oswaldo Justo. Reportando sua tarefa de reerguimento do transporte público na CSTC, que mostrou possível. Hoje, o transporte coletivo é solução urbana e alternativa ao caos, exigindo soluções.

Justo, o antigo líder da oposição, na experiência que narramos mostrou possível a manutenção de um sistema público, barato e que dá lucro – processo que acompanhei e reportei -, para quem ousar popular sem as grandes contratações lucrativas para poucos. Não é possível entregar às empresas serviços públicos sem modificar a sua ótica de atividade lucrativa e não de serviço. Basta disciplina, organização, planejamento para o bem público. Simples.

Escrevo como autor do Trabalho de Conclusão de Curso em Direito, em 2000, também com enfoque sobre o tema. Escrevo como o único indiciado na Lei de Segurança Nacional na região em 1983, em face da luta na Associação dos Usuários do Transporte Coletivo, que integrei. Escrevo nesta vasta memória da cidade que teve o melhor transporte popular do país e do continente, que não fazia sofrer além das más condições de trabalho impostas pelo sistema econômico.

A retirada dos bondes a partir de 1971 por governos municipais da intervenção não obedeceu a nenhuma lógica urbana lúcida, agravando o quadro do trânsito e comprometimento irremediável da qualidade do transporte público. Quantos veículos coletivos tínhamos na época do auge do bonde em relação á população? Quantos temos hoje e de quem é o caos? Não poluentes, eficientes, presentes, deram lugar a veículos poluidores de pouca durabilidade, quentes, sacolejantes e de cara manutenção – incômodos e inadaptados à cidade tropical.

Agora, Santos volta a ter bondes como diversas cidades européias e norte e latino-americanas que nunca os retiraram. Macios, econômicos, não-poluentes, duráveis, aqui foram considerados ultrapassados. Atrapalhavam o trânsito. Não, era o trânsito que atrapalhava o bonde. São transporte efetivo de massas. Eles carregam muito mais gente do que os carros. Não são velozes? E quem é veloz no engarrafamento? Os espaços reservados aos ônibus que se quer implantar hoje eram os trilhos...

Que bobagem foi retirar os bondes, cobrir seus trilhos que estão debaixo do asfalto onde estão colocando-os de novo. Ah, santo desperdício! Estão fazendo o mesmo com os trólebus, apagando-os da história com os escandalosos descumprimentos de contratos que garantiam lucros públicos - vontades individuais impondo-se com violência sobre o bem coletivo.


OS 100 ANOS DO BONDE DA HISTÓRIA
Saudade Social - II
PAULO MATOS (*)

A cidade de Santos já teve a maior rede aérea de bondes da América do Sul em 1917, um transporte exemplar que fazia mudanças e atendia pedidos para festas, para levar e trazer nos bondes os convidados. Foram instalados em Santos, puxados a burro, em 1871 - um ano antes de São Paulo. Por que saíram, estes que chegaram há mais de cem anos para ilustrar a terra?

Santos foi a primeira cidade brasileira a fazer transporte de mercadorias e entregas por bondes, veículos que duravam cem anos. Isso além de serem pontuais, confortáveis e atenderem à demanda de passageiros, em números e veículos quase iguais aos de hoje com a população multiplicada. Os bondes saíram de cena, foram retirados porque, diziam, eles atrapalhavam o trânsito – e hoje se descobre que o trânsito não tem jeito e que temos que apelar para os coletivos, a única solução para a cidade.

Era o trânsito que atrapalhava bonde e não o contrário, triste conclusão depois de desmontar uma estrutura milionária de redes e veículos que duravam um século, doados para cidades pelos interventores que passavam. Estamos trazendo bondes da Europa. Quase não temos mais os nossos bondes, destruídos a machadadas nos anos 70, para apagá-los do cenário.

Os bondes iam até São Vicente pela praia, o que se iniciou há 136 anos, registrados neste 7 de julho, em 1873 – mais baratos, freqüentes e diferentes das lotações desumanas atuais. Serviam ao revés dos ônibus, que carregam seres humanos como gado, estes escravos modernos obrigados a eles e suas empresas gigantescas e rentáveis. Econômicos, viáveis, silenciosos, não-poluentes, os bondes estão presentes pelo mundo. E aqui, ficaremos sujeitos aos gigantes voadores?

O resultado da substituição por ônibus e a privatização do sistema são as superlotações, o calor, os sacolejamentos, além da espera e da ausência. O transporte elétrico é melhor, já diria Justo quando era vereador nos anos 60. Ele convocou o então general-presidente da SMTC, General Aldévio Barbosa de Lemos, imposto pela Ditadura, para provar – em 1967. Levou um ano para trazê-lo à Câmara. Não adiantou sua defesa, acabaram com os bondes.

Não adiantou a tenacidade de Oswaldo Justo, o vice eleito em 1968 que não deixaram assumir, que foi o prefeito que trouxe os trólebus de volta em 1987. Do prefeito que recuperou a CSTC com Marcos Duarte e do saudoso Eurico Galatro. Nomes como dos jornalistas Antonio Aguiar e Áureo de Carvalho, do esforço do jornalista Lane Valiengo entre tantos os que deram brilho á luta pela volta dos bondes.

Vamos trazer o bonde de volta, que agora tem que ser buscado na Europa, pois os da maior rede da América do Sul em 1917 – Santos – foram destruídos, quebrados, doados pelos interventores para cidades diversas. Não há de ser nada. Reconstruiremos o transporte público e os bondes porque eles são eternos, tem frescor em terras tropicais, não fazem fumaça, circulavam a noite toda, alimentavam o comércio e os usuários, não quebravam, não sacolejavam, não esfumaçavam, não deixavam motoristas e cobradores loucos em dirigir e fazer trocos complicados.

Ah, os bondes... A cidade que os tem como símbolo turístico os traz de volta, modernos porque úteis, silenciosos, inteligentes e serviçais, escravos das pessoas e não das empresas, do petróleo, da borracha. Sua manutenção é a lavagem. Baratos demais, saíram de moda. Estiveram por aqui desde 1908 até 1972, os elétricos – antes os puxados a burro, desde 1871. Os que o usaram antes se emocionam ao seu tremor leve, suave da partida. Os jovens se perguntam: Porque tiraram os bondes? È só levar a história a sério e vamos descobrir.

(*) Paulo Matos é Jornalista, historiador pós-graduado e bacharel em Direito, autor do livro Transporte coletivo em Santos, história e regeneração”
Fone (13) 97014788

domingo, 12 de abril de 2009

OS 46 ANOS EM SANTOS DE ARMENIO MENDES - Uma história de construção

OS 46 ANOS EM SANTOS DE ARMENIO MENDES
Uma história de construção
Paulo Matos (*)


O amor ele trouxe de Portugal e o expandiu aqui, com sua obra. Há 46 anos de dedicação a Santos e ao seu desenvolvimento, gerando meios de vida para milhares, Armenio chegou em Santos em um 18 de abril de 1963, pasta de marceneiro sua bagagem, com que sobreviveu. O trabalho sua senha e garantia.

É o filho de Adriano Mendes, o pai que se foi quando ele tinha 12 anos e que mal conheceu - e de Maria do Carmo Medeiros, ainda hoje em Chão-de-Couce aos 88 anos -, uma vila que fica no eixo de três grandes cidades, Coimbra, Pombal e Tomar, Distrito de Leiria.

Há 46 anos ele viria para cá, para trabalhar como poucos, com avidez, até hoje – pés na construção e no exame minucioso de cada detalhe, que conhece desde quando marceneiro, que fazia trabalhos de porta em porta nas folgas do emprego. Santos e Portugal, este seu amálgama e sua paixão, sua unidade, que persevera humano na tarefa de fazer. Hoje, ele lidera como cônsul honorário da região os patrícios da comunidade lusitana, a quem serve humilde..

Filho e neto de pedreiro, quando pequeno foi trabalhar em uma olaria de telhas e tijolos até os 14 anos, optando por ser marceneiro. Trabalhou por quatro anos e temeroso do Serviço Militar - que poderia levá-lo às guerras nas províncias ultramarinas de Portugal na África, Angola, Guiné, Moçambique, de onde muitos voltavam mortos ou mutilados - veio para cá. Era a vida sua contribuição.

Até os 18 anos, ele podia pedir uma licença militar e se ausentar do país, o que fez. Amigos que viviam em São Paulo passaram por lá e o levaram, assinando uma “Carta de Chamada” para o Brasil. Armenio veio no navio “Cabo de São Vicente”. O tio açougueiro de São Paulo lhe conseguiu um emprego em um estaleiro naval em Vicente de Carvalho, oito horas por dia por onze meses. Um dia acidentou-se no trabalho, ao que o patrão disse que ele não sabia fazer nada. Enganou-se.

Marceneiro, saia nas horas que lhe sobravam para fazer portas e caixilhos. Fez parceria com a Casa Verde, para colocar os vidros, e ficou seu representante. Deu duro. Motorista do caminhão que adquiriu com suor e que trabalhou no aterro em Guarujá, consertador de bicicletas, dormia ao lado da oficina em Vicente de Carvalho, ao que o chamavam por uma janela para consertá-las, só, mas com certeza.

Essa certeza Armênio foi buscar na “terrinha” lusitana em 1971, a sua Dulcinéia Del Toboso, como D. Quixote: era Celeste e sua alegria imanente. E casou-se com ela, formando família que hoje trabalha com ele – Alex, Paulo, Carina e um montão de netos, sua alegria, parte de seu amor à humanidade na grande família que gerencia.

Armenio já entregou na cidade de Santos seis mil apartamentos, dois shoppings em Santos, um em São Vicente e o maior centro de convenções da região, impulsionando-a - o que, para ele, não basta. Hoje, este Mendes vive cercado pela cidade que ajuda a construir e por seus inúmeros netos. É social e progressista a memória que faz erigir, desenvolvendo e transformando bairros, criando estruturas para a cidade crescer e fazer convenções de grandes dimensões, embora sem incentivo público, apenas investimento pessoal.

Armenio é originário de família pobre como a Vila em que nascera na pátria lusitana - fazia-se pão-de-milho em casa para alimentar mãe e quatro irmãos –, alimento que aparecia nos fins-de-semana e que não raro tinha que excluir a mãe ou não daria para todos. A atividade familiar era o cultivo de azeite, uva e milho, original dos avós, que trabalhavam antes dos novos membros.

Este Mendes difere-se de pessoas que vemos todo dia por sua garra – chamaríamos libido, vontade, obstinação no sentido original alemão, como lhe definiu Hermann Hesse, entre Narciso e Goldmund: obstinação como a vontade do próprio ser, de fazer predominá-la no sentido da construção.

Armenio pratica a mágica da união de pessoas, de quem fortalece a unidade social no núcleo gerando atividades e empregos além de suas próprias necessidades. E que tem em sua volta pessoas felizes com seu jeito de ser e de tratar, sem explorar para cumular riquezas. O marido de Celeste é um homem que vê além de seu tempo, para o futuro, o que provou em quarenta e seis anos de trabalho gerando muitos empregos e vidas.

O trabalho é nossa matéria e nossa história, a precisão seu detalhe. E a precisão exigida por Fernando Pessoa para os navegantes – “navegar é preciso...”, escreveu, “viver não é preciso...” , foi projetada a partir do berço e do traço atento e exato de um homem. Na mente - e depois no papel e no suor - palácios urbanos que geram atividade econômica, trabalho e vida.

O segredo que trouxe não exigia guarda na viagem, pois que vinha dentro dele, de braço dado com a coragem: era a criatividade que, para o Físico Albert Einstein: em determinadas situações vale mais que o conhecimento - sem prescindir do trabalho e modernidade das torres que melhoram o ar.

Sorte? Inteligência? Vontade? Na verdade, ninguém poderá deixar de lado a característica implícita do esforço pessoal na concepção desta tarefa hercúlea de construir e agregar, demonstrada no dia-a-dia de uma fábrica que possibilita sonhos pessoais para muita gente.

(*) Paulo Matos é jornalista, historiador
pós-graduado e bacharel em Direito
E-mail: jornalistapaulomatos@yahoo.com.br
Blog: http://jornalsantoshistoriapaulomatos.blogspot.com
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AS AUTONOMIAS DE SANTOS NA PAUTA

AS AUTONOMIAS DE SANTOS NA PAUTA
Paulo Matos (*)

No dia 13 de março de 2009 registraram-se os 40 anos da cassação do prefeito eleito Esmeraldo Tarquínio e a posterior suspensão da Autonomia santista, golpeada já outras quatro vezes. No dia 15 de junho completaram-se 114 anos da revogação da Constituição Municipal santista de 1894, promulgada em 15 de novembro desse ano e revogada no dia 15 de junho do ano seguinte – em tempos da fundação do jornal A Tribuna do Povo e do surgimento do resistente jornalista Olímpio Lima – na alma do processo narrado.

É este o tema do livro “As Autonomias nacionais da Santos libertária!”, um livro pedagógico que busca edição e que traz reportagens e comentários destes episódios. O Golpe de 1964 a partir da renúncia de Jânio e apressado pelo Comício das Reformas de base em 13 de março de 1964 estão registrados, definindo a data em que cinco anos depois a cidade seria violentada. Contamos fatos inéditos e ocultos da luta pela Autonomia que voltou em 2 de agosto de 1983, melhor, efetivamente com a posse de Oswaldo Justo prefeito em 9 de julho de 1984.

Fizemos esse registro inédito da Constituição Municipal de 1894. Essa lei santista de 114 anos atrás propunha revogação de mandatos de parlamentares, conquista inédita até hoje, assim como o voto feminino que só viria 37 anos depois. A revogação da Constituição Municipal santista contribuiu, com seu ímpeto centralizador, para o atraso social, político, econômico e cultural do país. Que sofre ainda hoje seus efeitos com a dominação desta política ancestral que não evoluiu e se mantém crônica e anti-social em seus aspectos de reserva do poder econômico político para poucos.

Narrando os maiores momentos da história de Santos nas batalhas pela recuperação das cinco Autonomias cassadas, o livro conta a perda da Autonomia de forma ampla por todos os municípios brasileiros no ano de 1894, quando foi promulgada a Constituição Municipal santista que seria revogada pela Assembléia Estadual no ano seguinte.

Na alma desse conflito o surgimento de um jornal chamado A Tribuna do Povo, que se tornaria A Tribuna e, antes disso, conta o episódio de 1893 da Revolta da Armada, bombardeando Santos no movimento da Marinha contra o então presidente da República Floriano Peixoto, o segundo no cargo que tentava o segundo golpe. Traz o texto constitucional de 1894 e lembra a história do porto e a transformação social gerada com sua evolução.

No centro da questão das Autonomias perdidas está o registro da cassação do prefeito eleito Esmeraldo Tarquínio, gerando a cassação pela última vez de nossa Autonomia – há 40 anos. E nossa transformação em Área de Segurança Nacional. A análise teórica da infração aos Direitos Humanos está presente no Espírito das Leis, trazendo a discussão sobre leis, clima e natureza e os filósofos Proudhon, Montesquieu e Robbes.

O significado da palavra Autonomia, do grego, assim como a frustração republicana e positivista da incapacidade em imitar o modelo francês da Revolução de 1789 estão retratados. O livro fala de 1968 no Brasil, em 28 de Março com o assassinato do estudante Edson Luiz, quando começava a revolução mundial da juventude. E do início disso no Brasil, com o episódio do capitão Sérgio e a passeata santista, com Tarquínio.

O livro traz os fatos do ano de 1969, com a cassação de Tarquínio e o adeus de Adhemar, a notícia da cassação e os tempos de medo, com a cassação em fonte primária e a barbárie da intervenção federal sobre Santos. Comenta a eleição e cassação em 1968/9 e fala de Santos em 1968, o ano que não acabou, com a Ditadura na política oficial.

O livro narra a luta da Autonomia e reporta o simpósio de 1980 e sua Carta de Princípios. Discorre sobre personagens célebres como o advogado Sérgio Sérvulo da Cunha – que seria vice-prefeito da gestão 1989-1992 - e sua e a saída jurídica para a Autonomia de Santos, discorrendo sobre a épica mobilização e trazendo a presença militante na época do ex-deputado Del Bosco Amaral.

O texto fala do jornalista da TV Cultura Vladimir Herzog, herói da resistência, morto sob tortura em 1975. E da Constituição Municipal de 1894, no capítulo “As leis do povo”. A efêmera vitória do conceito de Autonomia municipal e a história do jornal A Tribuna do Povo na letra do jornalista de A Tribuna Olao Rodrigues, assim como o discurso do então presidente da Câmara Manoel Tourinho na promulgação desta Carta em 1894 estão presentes. Conta a vida de Esmeraldo Tarquínio, “um homem no seu tempo”, no capítulo intitulado “Tarquínio, tempestade de sol”. E fala de Santos, comunidade livre e autonomias perdidas em 1930, 1937, 1947, 1964, 1969.

Indo aos primórdios, comenta a Revolução que Prestes não quis em 1930 e a primeira Autonomia santista que se foi nesse ano. A obra teoriza a questão com Foucault e justiça popular e fala da República Militar, contando o golpe da República em 1889. Os episódios das revoluções de 30 e 32 estão presentes, assim como a volta da Autonomia da cidade, em 1936.

Biografias como de Antonio Manoel de Carvalho, o primeiro “prefeito” nomeado e de Oswaldo Justo, 1984, o prefeito da Autonomia, do interventor federal Bandeira Brasil estão na obra, que volta a discutir o tema da constituição santista e libertária de 1894, com o texto do jornalista de A Tribuna Francisco de Marchi, que escreve sobre a Constituição Municipal santista de 1894.

“Santos, autonomias e tutelas” é o titulo do capítulo que reporta cada um dos episódios das Autonomias suspensas de 1937 a 1953 e comenta a questão da Autonomia e descentralização, ideal republicano teórico. Mostra o autor da Constituição Municipal, em “Vicente de Carvalho, o poeta do mar” e remontam a legislação republicana, as bases da Constituição Municipal de 1894.

No capítulo “Aqui, a autonomia mais radical do país” faz menção a este texto, que reporta as questões jurídicas dos republicanos monarquistas e traz a biografia de seu contestador, galeão carvalhal e seu recurso contra a constituição municipal, comentando como Santos perdeu a melhor Constituição Municipal do país na que já foi a “Barcelona Brasileira”.

O episódio da eleição da “Cidade Vermelha” e a cassação da Autonomia de Santos em 1947 reporta a Câmara comunista eleita e cassada – 14 dos 31 membros - e dos personagens e processos comunistas, com a violência sobre a “Câmara Vermelha em Santos”. E traz a biografia de pessoas vitais nesse momento como Taibo Cadórniga - professor, deputado e líder popular. Contando sobre o grande pintor brasileiro Cândido Portinari, candidato a deputado e ao Senado com os comunistas em 1947.

O livro reporta a repressão aos comunistas e lembra-se de personagens como Félix e Veloso, heróis destes tempos, estivadores e candidatos a vereador do PCB/PST em 1947. Traz a biografia de Antonio Feliciano e de Silvio Fernandes Lopes, do prefeito José Gomes e de quando em 1965 eleições voltaram - mas por pouco tempo, para uma longa sequência de insana brutalidade - concluindo com a descrição da terra da caridade e da liberdade.

(*) Paulo Matos é jornalista, historiador pós-graduado e bacharel em Direito
mailto:jornalistapaulomatos@yahoo.com.br
Blog: http://jornalsantoshistoriapaulomatos.blogspot.com/
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TERREMOTO NA ITÁLIA: AS PRAIAS SUBMERSAS E OS ECOLOGISTAS MALUCOS

TERREMOTO NA ITÁLIA:
AS PRAIAS SUBMERSAS
E OS ECOLOGISTAS MALUCOS
Eco e a invasão do mar no planeta

Paulo Matos (*)

Estamos olhando pela janela e esquecendo o apito da panela de pressão que anuncia explosão. O mundo está vendo o episódio do terremoto da Itália. Antes, o técnico Giampaolo Giuliani, do Laboratório Nacional de Gran Passo, tentou teimosamente avisar a cidade dele, até com carro de som. A trepidação geológica ocorreu a uma hora de L áquila, na madrugada de segunda-feira - cidade fundada no século XIII na região de Roseto de Gli Abruzzi. Giampaolo fez isso há tempos e com seus próprios meios, sendo até processado pela Defesa Civil da Prefeitura local por isso.

O técnico foi acusado de alarmar indevidamente a população do local em que existiu e ficou preservado o castelo em que foi filmada a obra do escritor Humberto Eco, “O nome da Rosa”, em que a manutenção dos segredos da Igreja Católica move a trama e desenha o procedimento. No Dia do Jornalista, que é hoje, sete de abril, lembro-me de uma peça de teatro que passou no antigo Teatro São Pedro, chamada “O inimigo do povo” – há 40 anos.

Na Itália, foram mais de cem mil desabrigados, centenas de mortos, milhares de feridos – casas, igrejas, prédios e monumentos históricos destruídos, pois a áreas é romanesca e renascentista. Mas nesta peça do famoso Ibsen, “O inimigo do povo”, um jornalista, magnificamente interpretado pelo ator Serafim Gonzalez, descobria que a estação de águas estava poluída.

O jornalista seria saudado por isso até a população ser comunicada dos efeitos de descoberta na cidade, que era uma estação de águas. O que seria dos hotéis, restaurantes, centros de consumo? Pobre do ex-grande descobridor, que se tornaria “O inimigo do povo”.

Tudo isso traz à menção uma questão nada fortuita que é a invasão da cidade pelo mar, que estou longe de ser o único a alertar, mas que as autoridades mantém rigorosa postura olímpica ao prever seus desastrosos efeitos mundiais. Aliás, tratar de temas globais em Santos foi sempre problemático, como se não fizéssemos parte do planeta. As pessoas não têm dimensão local.

Países inteiros estão programando sua mudança, pois localizados em ilhas que desaparecerão. Muitos imóveis já se perderam inclusive no Brasil, motivado pelas ressacas que avançam. Aqui, cada uma é pior do que a outra e cada uma que invade com as águas do mar as ruas e as garagens dos prédios a Prefeitura manda colocar mais algumas dezenas de pedras, como o pássaro que faz sua parte levando com o bico um pouco de água ao incêndio da floresta e fazendo sua parte. A figura é bela, mas ineficaz.

Já existem previsões antecipatórias para 20 e 30 anos da catástrofe e que a água chegará até os bairros internos, isto após derrubar os prédios. Mas será mesmo que isso não é coisa destes ecologistas malucos ou mesmo destes jornalistas alarmistas dando voz a pesquisadores que não tem o que fazer? Quem aposta na omissão?


(*) Paulo Matos é jornalista, historiador pós-graduado e bacharel em Direito
e-mail: jornalistapaulomatos@yahoo.com.br
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Alerta - Os 10 Artigos sobre a iminente invasão do mar

SANTOS NA INVASÃO DO AMBIENTE – I
- No olho do furacão
Paulo Matos (*)


Escreve a Wikipédia que o nível do mar subiu cerca de 130 metros desde o auge da última idade do gelo, há 18 000 anos. A maior parte desta subida ocorreu antes de há 6 000 anos. Desde há 3 000 anos até ao início do século XIX, o nível do mar manteve-se praticamente constante, subindo entre 0.1 e 0.2 mm/ano. Agora, estamos “no olho do furacão” desse problema e devemos projetar as soluções – mesmo porque, lembremo-nos, moramos a beira-mar.

O saite http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI2908313-EI8278,00.html informa que hoje, no Rio, 60 mil pessoas vivem em áreas que submergirão se o mar subir até 1,5 metro, o que pode acontecer até 2100. Ora, temos a mesma natureza da “Cidade Maravilhosa”. Ou não devem ser consideradas estas informações?

E conclui: as obras têm que iniciar em 2020 e 2030. É o que avisa Sérgio Besserman, presidente do Instituto Pereira Passos (IPP), órgão da Prefeitura que estuda o impacto das mudanças do clima no Rio de Janeiro, cidade litorânea como nós. É preciso se preparar já, alertam especialistas. O aumento do nível do mar e a pressão dos lençóis freáticos obrigarão o governo a investir pesado na estrutura da cidade. Segundo ele, alguns prédios também terão de fazer suas pequenas obras.

A subida do nível do mar pode ser produto do aquecimento global através de dois processos principais: expansão da água do mar devida ao aquecimento dos oceanos e derretimento de massas de gelo sobre terra firme. Prevê-se que o aquecimento global possa causar uma subida significativa do nível do mar ao longo do século XXI. Em cada ano, cerca de 8 mm de água da superfície inteira dos oceanos cai na Antártica e na Gronelândia sob a forma de neve. Se o gelo não retornasse aos oceanos, o nível do mar diminuíria 8 mm a cada ano.

Todavia, aproximadamente a mesma quantidade de água retorna aos oceanos em icebergs e em gelo derretendo nas extremidades. Os cientistas não sabem qual é o maior - o gelo que entra ou sai. A diferença entre o gelo que entra e o gelo que sai é chamada de balanço de massa e é importante pois faz variar o nível do mar a nivel global.

Não podemos esquecer que somos cidade litorânea com porto e praia, que sofrerão com a elevação do nível do mar - por mais “Conselheiro Acácio” que isso possa parecer. O que nos coloca no centro de uma questão mundial que é a desse avanço das ondas sobre as cidades litorâneas. Que pode derrubar os prédios da orla, no início da anunciada invasão das águas salgadas, que sobem.


O saite da Globonews
http://www.mundosustentavel.com.br/globo270507.asp
avisa:


“O painel intergovernamental de mudanças climáticas da ONU prevê que, nos próximos 100 anos, o nível do mar deva subir entre 18 cm e 59 cm. No Brasil, esta elevação poderá atingir 42 milhões de brasileiros”. É o derretimento das geleiras na Antártica e na Groelândia. É pegar ou largar. As providências podem ficar por conta da nova secretaria de Ciência e Tecnologia, do Fabião.


*

SANTOS NA INVASÃO DO AMBIENTE – II
A elevação do mar em Santos
Paulo Matos (*)

Outra fonte sobre a elevação do nível do mar em função do derretimento das geleiras é a FAPESP – a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo -, que diz que a ameaça é mais grave do que se imaginava. O saite informa que se estima que 40% das praias do país sejam mais vulneráveis ao avanço gradual do mar. E reitera:

“O nível do mar poderá subir entre 18 e 59 centímetros até o final deste século, o que tornaria as populações costeiras mais vulneráveis a enchentes e tempestades. As áreas ameaçadas hoje abrigam cerca de 2% da superfície terrestre e aproximadamente 10% da população”. A conclusão é a mesma da pesquisa publicada na revista Nature.

Alguém já parou para pensar nisso ou o tempo das grandes soluções em Santos acabou com Saturnino de Brito na obra dos canais? O saite http://riosvoadores.com.br/WordPress/?p=10 traz a notícia de que a USP simulou o que acontecerá se o Atlântico subir 1,5 metros até o fim do século, em razão do aquecimento global.

O saite http://www.ecodebate.com.br/2008/09/08/holanda-se-prepara-para-a-elevacao-do-nivel-do-mar/ diz que a Holanda deve gastar mais de 100 bilhões de euros (R$ 248 bilhões) para preparar diques e proteções costeiras contra a elevação do nível do mar.

A elevação do nível do mar pode acabar com praias, destruir mangues e expor a ressacas áreas urbanas que hoje estão protegidas na Baixada Santista. A conclusão é de pesquisas realizadas com um modelo físico com 750 m2 - uma maquete da Baía e Estuário de Santos construído num galpão do Laboratório de Hidráulica da Poli (Escola Politécnica da USP).

Haverá redução nas praias, se perderá faixa de areia como já aconteceu no Gonzaguinha devido à ligação Ilha Porchat-Continente, o que fará a plataforma do Emissário. O mar vai atacar bravo até lugares que hoje só são atingidos em ressacas mais fortes, como a da Ponta da Praia em 2005 que inundou pistas e garagens, destruindo muretas e proteções. Haveria impacto nos mangues, influenciando no aumento da necessidade de dragagem.


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SANTOS NA INVASÃO DO AMBIENTE – III
- Avanço do mar em Santos, muralhas na praia
Paulo Matos (*)
Áreas interiores da Aparecida e Ponta da Praia, mesmo que as ondas não avancem sobre as calçadas nesses locais, podem ter prejuízos, diz a pesquisa sobre o tema do aumento do nível do mar do professor da Poli Paolo Alfredini. Para ele, em todo o sistema de canais de drenagem que tornam determinadas áreas habitáveis, o nível de referência é o mar – e essas regiões são muito planas. Se o mar subir 1,5 metros grandes áreas passarão a ser mais inundadas”.
A subida do mar também pode prejudicar o sistema de coleta de esgoto da cidade, que direciona efluentes para emissários na orla, dizem os cientistas. E outra preocupação é o comprometimento de atuais fontes de água doce, porque a água salgada invadirá mais os canais e lençóis freáticos.

Apesar do detalhamento do modelo de Alfredini, porém, mais estudos são necessários para saber como lidar com o problema no futuro. Se teremos ou não um sistema de diques será possível para conter o mar, mas já é uma previsão real – as muralhas na praia. Será a muralha do canal 1, 2, 3, 4... É preciso acordar e pensar nisto, planejar. Na pior das hipóteses, será preciso adaptar construções ou simplesmente conviver com o problema: uma Baixada com menos praias e mangues, sem proteção natural contra ressacas.

Rio de Janeiro e Recife estão entre as cidades que oferecem menos resistência ao mar, na ameaça da elevação dos níveis em função do derretimento das geleiras, pela presença de manguezais e áreas densamente povoadas próximas de estuários. Especialistas apontam o que pode ser feito nas duas cidades para minimizar os efeitos da elevação do nível do mar sobre a população e os ecossistemas locais. Seria bom que nossas autoridades municipais vissem estes projetos e os estudassem.

Em outubro de 1987, o presidente da nação situada nas ilhas Maldivas, próximas a Austrália, alertou em um fervoroso discurso perante a Assembléia Geral das Nações Unidas que seu país estava ameaçado pela elevação do nível do mar. Aqui nunca nos mostramos preocupados com a ameaça futura, como é usual em administradores públicos excessivamente norteados pelo hoje de soluções necessárias e urgentes – motivados pela lógica do sistema.

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SANTOS NA INVASÃO DO AMBIENTE – IV
Ambiente e Coletividade
Paulo Matos (*)
Friedrich Engels falou na ação humana contra o ambiente na lógica do lucro imediato e sem preocupações com os efeitos remotos, como as que geraram as devastações presentes hoje no planeta, em função de políticas equivocadas. Escreveu isso já em 1876, da necessidade de vinculação das ações com políticas que se exigem coletivizadas no interesse de todos e não apenas de alguns. A questão do derretimento das geleiras e da elevação do nível do mar com a inundação de ilhas pelo mundo faz parte disso, provocada pela insensatez da produção da sociedade de consumo.

Isso quer dizer que em alguns anos teremos que resolver o problema de centenas de prédios da praia, que terão suas garagens inundadas e suas estruturas inundadas pela água que um dia retiraram. Na Ponta da Praia, no trecho sem areia, a invasão do mar recente – 2005 - inundou pistas e garagens. A medida tomada foi de eficácia infantil, como aquela história do pássaro que fazia sua parte ajudando, com seu bico que buscava água do mar, a apagar o incêndio da floresta, o que é belo, mas ineficiente.

A obra foi feita pela Prefeitura com agilidade, a reconstrução da mureta e a colocação de algumas dezenas de pedras sobre as já existentes na intenção de barrar o mar que avança como resultado das geleiras que derretem. Mas eram soluções tímidas e temporárias, só até a próxima ressaca.

Cerca de dois terços das geleiras já se foram derretidas pelo aquecimento global e o restante irá rápido. A queima de carbono faz aquecer a terra, mas as novas descobertas de petróleo são saudadas na realidade econômica do lucro rápido e sem romantismo. Não dá para brecar.

Nas palavras do presidente de Maldivas há 22 anos, seu país de mais de trezentos mil habitantes era “uma nação em perigo.” Com a maioria das suas 1.196 ilhas minúsculas somente 2 metros acima do nível do mar, a sobrevivência das Maldivas estaria em perigo mesmo com um aumento de apenas um metro em decorrência de uma ressaca.

Os dados da fornecidos por Lester Brown, fundador do WWI - World watch Institute e do EPI-Earth Policy Institute, EPI - Earth Policy Institute / UMA - Universidade Livre da Mata Atlântica, site http://www.wwiuma.org.br/ são precisos e tiram o sono apenas das pessoas que vem a vida além de sua própria existência, o que é raro na disputa acirrada do sistema econômico atual – o que permite esta agressão medieval contra os Direito Humanos.

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SANTOS NA INVASÃO DO AMBIENTE – V
O exemplo do avanço do mar nos Estados Unidos
Paulo Matos (*)

Uma equipe do Woods Hole Oceanographic Institute calculou a perda de terra em Massachusetts pela elevação do mar, à medida que o aquecimento avança. Segundo os dados da fornecidos por Lester Brown, da WWI - World watch Institute e do EPI - Earth Policy Institute, EPI - Earth Policy, utilizando as modestas projeções de elevação do nível do mar até 2025 da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a equipe calculou que Massachusetts perderia mais de quatro mil hectares de terra.

Com base apenas na estimativa menor, e num valor nominal da terra de US$ 1 milhão por acre para terrenos frontais ao oceano, isto significará uma perda de, no mínimo, US$ 7,5 bilhões em propriedades de alto valor. Algumas das 72 comunidades costeiras incluídas no estudo perderiam muito mais terras do que outras. Nantucket poderia perder mais de seis acres e Falmouth, 3,8 acres, anualmente.

Os valores imobiliários costeiros provavelmente serão um dos primeiros indicadores econômicos a refletirem a elevação do nível do mar. Aqueles com grandes investimentos em propriedades de praia serão os mais afetados. Uma elevação de meio metro nos Estados Unidos causaria perdas entre US$ 20 bilhões e US$ 150 bilhões. Propriedades de praia, da mesma forma que usinas nucleares, estão se tornando impossíveis de serem seguradas – como muitos proprietários na Flórida já descobriram.

Muitos países em desenvolvimento que já lidam com crescimento populacional e competição intensa por espaço para moradia e cultivo, hoje se defrontam com a perspectiva do aumento do nível do mar e perdas substanciais de terra. Alguns dos países mais diretamente afetados foram os menos responsáveis pelo acúmulo do CO2 atmosférico, causador deste problema.

Enquanto os americanos enfrentam perdas de propriedades valiosas à beira da praia, os povos de ilhas baixas se defrontam com algo muito mais grave: a perda da sua nacionalidade. Eles estão aterrorizados com a política energética dos Estados Unidos, considerando os EUA uma nação velhaca, indiferente à sua adversidade e sem disposição de cooperar com a comunidade internacional para a implementação do Protocolo de Kyoto.

Pela primeira vez, desde o início da civilização, o nível do mar começou a se elevar numa escala mensurável. Tornou-se um indicador a ser observado, uma tendência que poderá forçar migrações humanas de dimensões inimagináveis. Também suscita questões, jamais enfrentadas pela humanidade, sobre a responsabilidade perante outras nações e as futuras gerações.

Aqui não temos dois metros acima do nível do mar e nem mesmo um, pois estamos exatamente no nível do mar - o que exigiu a construção dos canais há mais de um século “guardando” água em canais de mar a mar da ilha na majestosa criação de Saturnino de Brito. E agora?

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SANTOS NA INVASÃO DO AMBIENTE – VI
Uma ilha que já desapareceu sob o mar
Paulo Matos (*)

Tuvalu é o primeiro país onde a população está sendo forçada a evacuar devido à elevação do mar, porém certamente não será o último. Eles estão procurando casa para onze mil pessoas. Mas, o que dizer sobre as 311.000 pessoas que poderão ser forçadas a deixar as Maldivas? Quem as aceitará? Ou os milhões outros que vivem em países baixos e que em breve poderão se juntar à fileira de refugiados do clima? E quando o mundo inteiro tiver estas migrações massivas?

Será que as Nações Unidas serão forçadas a estabelecer um sistema de quotas para os “imigrantes climáticos”, alocando os refugiados entre os países de acordo com o tamanho de sua população? Ou a alocação obedecerá a proporcionalidade da contribuição de países individuais à mudança climática que provocou a evacuação? A agricultura sofrerá mutações como os ventos e os peixes na catástrofe produzida.

Os líderes de Tuvalu – uma minúscula ilha-nação no Oceano Pacífico, a meio caminho entre Havaí e Austrália – reconheceram a derrota em sua batalha com o mar invasor e anunciaram que abandonarão seu país. A Nova Zelândia concordou em aceitar todos os cidadãos de Tuvalu e a migração teve início em 2002.

Durante o Século XX, o nível do mar subiu 20 – 30 centímetros. Com tamanha elevação, os Estados Unidos perderiam 36.000 quilômetros quadrados de terra – com a perda maior nos estados do Atlântico e do Golfo. Grandes áreas de Manhattan e o Capitólio em Washington, D.C., seriam inundados pela água do mar, com 50 anos de ressacas.

O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática projeta uma elevação de até 1 metro durante este século. O mar está subindo devido ao derretimento das geleiras e à expansão térmica do oceano, em conseqüência da mudança climática. Esta, por sua vez, é causada pelo aumento dos níveis atmosféricos de CO2, principalmente pela queima de combustíveis fósseis.

Enquanto o nível do mar sobe, Tuvalu sofre inundações nas baixadas. A intrusão da água salgada está contaminando sua água potável e prejudicando a produção de alimentos. A erosão costeira está corroendo as nove ilhas que compõem o país. O fenômeno é comum em praias do Nordeste e de Santa Catarina, que cedem ao avanço do mar, objeto também de políticas equivocadas como as da construção de enrocamentos tipo Emissário Submarino.

O que fazer? Campanhas de redução de emissões de carbono e aproveitamento de recicláveis para reduzir o consumo do finito patrimônio ambiental são tímidas. E existem duas correntes, pois há os que acham que tudo isto é diletantismo e que não haverá tempo hábil para soluções definitivas.

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SANTOS NA INVASÃO DO AMBIENTE – VII
Áreas de risco
Paulo Matos (*)

Conta o Greenpeace, uma das mais atuantes entidades ecológicas mundiais, que nas cinco principais metrópoles à beira-mar – Fortaleza, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Belém – residem mais de 22 milhões de indivíduos. Nelas e nas demais o nível médio do mar pode aumentar entre 30 cm e 80 cm nos próximos 50 a 80 anos. Qual a atitude? Ela é possível? Que tal iniciar seu planejamento? As tempestades estão ai como fruto do aquecimento global.

O aparecimento de furacões não é o único risco da elevação do nível do mar. Nas cidades litorâneas brasileiras, cerca de 42 milhões de pessoas (25% da população) que vivem na zona costeira, serão possíveis vítimas da elevação do nível do mar. A contagem de meio século - 50 anos - observou a elevação do mar da ordem de 40 cm / século, ou 4 mm / ano. Nossos filhos e netos estarão ai para assistir e administrar a crise inexorável.
No saite do Greenpeace

(greenpeacebr_0700403_elevacao_do_nivel_do_mar1.pdf)

consta que 10% da população mundial está em risco. Um estudo científico do Instituto Internacional para o Ambiente e o Desenvolvimento, de Londres, publicado no jornal "Environment and Urbanization" identifica, pela primeira vez, as áreas costeiras baixas como vulneráveis à elevação do nível do mar provocada pelo aquecimento global.

A Ásia é particularmente vulnerável e, em geral, as nações mais pobres correm maior perigo. Entre 1994 e 2004, cerca de um terço dos 1.562 desastres com enchentes ocorreram na Ásia. Das 120 mil pessoas que morreram nesse tipo de tragédia, cerca de metade vivia na região.

No total, 634 milhões de pessoas moram em zonas de risco - regiões com menos de 10 metros de altitude - e esse número está crescendo, diz o estudo. Dos mais de 180 países com população vivendo em regiões costeiras de baixa altitude, cerca de 70% possuem áreas urbanas com mais de cinco milhões de pessoas.

De acordo com o estudo publicado no site “Sciencexpress” (www.sciencexpress.org/14December2006), pelo Potsdam Institute for Climate Impact Research, da Alemanha, existe uma relação direta entre a elevação do nível do mar e o aumento médio global de temperatura. O estudo demonstra uma aproximação entre temperatura e as mudanças do nível do mar, durante o século 20, de 3,4mm / ano / °C.

Quando aplicados os cenários de aquecimento futuros do IPCC, resultam em um aumento do nível do mar, no ano de 2100, de 0,5 metros a 1,4 metros acima dos níveis de 1990. As variáveis são diversas, mas não fazem projeções muito diferentes entre si.


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SANTOS NA INVASÃO DO AMBIENTE – VIII
Aquecimento global e soluções

Santos é mar, que a cerca e enfeita. E, por isso, responsável por ele e dependente dele, ao seu comportamento, que pode afetá-la gravemente não só na orla como na Zona Noroeste e até bairros próximos à praia. Alertamos para a subida do mar, que é observada desde 1961.

Nestes 48 anos os oceanógrafos observaram que os oceanos do planeta estão esquentando 50% a mais do que se imaginava. E isso pode fazer com que a elevação do nível do mar fiquem próximas do pior dos mundos. A Revista “Nature” de junho de 2008 publicou a pesquisa liderada por uma oceanógrafa paulista e ligada a um estudo australiano do período 1961 - 2003. A água aquecida aumenta de volume, o mar absorve 90% do calor da terra. O derretimento do gelo sobre os continentes faz o resto.

Não há dúvidas sobre aquecimento global, conclui COP-13 – a 13ª Convenção do Clima. O artigo de Thiago Romero, da Agência FAPESP, mostra que o aquecimento do sistema climático mundial foi detectado de forma inequívoca. Essa é uma importante e genérica conclusão do quarto relatório científico do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que foi reconhecida politicamente na 13ª Conferência das Partes da Convenção do Clima (COP-13). É o que diz o saite http://www.itsb.org.br/aquecimento_global.htm.

A afirmação é do sociólogo Eduardo Viola, da Universidade de Brasília (UnB), que coordenou uma mesa-redonda formada por outros seis especialistas para debater os esforços internacionais em torno das questões climáticas. A discussão fez parte do 6º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política, realizado na semana passada na Universidade Estadual de Campinas

De acordo com o artigo de Fábio Reynol na Agência FAPESP – http://www.agencia.fapesp.br/materia/9221/especiais/protocolos-e-acoes-insuficientes.htm - do mesmo modo que os países se organizaram para evitar o holocausto nuclear durante a Guerra Fria, o medo de uma catástrofe climática deve mover os governos de hoje a buscar saídas para o aquecimento global.

A antropóloga Myanna Lahsen, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), neste saite, apontou um paradoxo perigoso na questão das mudanças climáticas. Segundo ela, os países em desenvolvimento, que seriam os mais vulneráveis às mudanças climáticas, são os que menos contam com recursos e conhecimento científico para as ações de adaptação necessárias. Seria bom que estivéssemos alertas.

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SANTOS NA INVASÃO DO AMBIENTE – IX
Aquecimento global e soluções

Para reverter o aquecimento global e um de seus males, a elevação catastrófica dos níveis do mar, são necessárias as energias chamadas “limpas”, assim como que o Brasil deixe de ser o quarto maior gerador de poluição na queima das florestas. O Brasil e seu clima tropical, seu sol, mares e rios é o desenho do que se acreditava existir – o Éden, o paraíso, que indubitavelmente será alvo dos interesses estrangeiros. Agora paraíso da produção da energia alternativa, aquela que não produz o aquecimento global, a chamada “energia limpa” que caminha para aproveitar como força-motriz nada menos do que o ar.

A biomassa já é uma realidade, a cana-de-açúcar, a energia eólica e solar, o sonhado hidrogênio. O mundo está de olho no Brasil por esta imensa potencialidade de produção de combustíveis essenciais ao combate do efeito estufa. De acordo com a Wikipédia, o efeito estufa é um processo que ocorre quando uma parte da radiação solar refletida pela superfície terrestre é absorvida por determinados gases presentes na atmosfera.

Como conseqüência disso, o calor fica retido, não sendo liberado ao espaço. O efeito estufa dentro de uma determinada faixa é de vital importância pois, sem ele, a vida como a conhecemos não poderia existir. O que se pode tornar catastrófico é a ocorrência de um agravamento do efeito estufa que desestabilize o equilíbrio energético no planeta e origine um fenômeno conhecido como aquecimento global.

O IPCC (Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas, estabelecido pelas Nações Unidas e pela Organização Meteorológica Mundial em 1988) no seu relatório mais recente diz que a maior parte deste aquecimento,observado durante os últimos 50 anos,se deve muito provavelmente a um aumento dos gases do efeito estufa.

Os gases de estufa (dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), Óxido nitroso (N2O), CFC´s (CFxClx)) absorvem alguma radiação infravermelha emitida pela superfície da Terra e radiam, por sua vez, alguma da energia absorvida de volta para a superfície. Como resultado, a superfície recebe quase o dobro de energia da atmosfera do que a que recebe do Sol e a superfície fica cerca de 30°Cmais quente do que estaria sem a presença dos gases “de estufa”.

Um dos piores gases é o metano, cerca de 20 vezes mais potente que o dióxido de carbono, é produzido pela flatulência dos ovinos e bovinos (o Brasil tem o maior gado do planeta), sendo que a pecuária representa 16% da poluição mundial. Cientistas procuram a solução para esse problema e estão desenvolvendo um remédio para tentar resolver o caso. Na Nova Zelândia pensou-se em cobrar-se taxas por vaca, para compensar o efeito dos gases emitidos.

Ao contrário do singnificado literal da expressão “efeito estufa”, a atmosfera terrestre não se comporta como uma estufa (ou como um cobertor). Numa estufa, o aquecimento dá-se essencialmente porque a convecção – transmissão do calor nos líquidos e gases por efeito do movimento das camadas aquecidas - é suprimida.Não há troca de ar entre o interior e o exterior. Ora acontece que a atmosfera facilita a esse processo de transmissão do calor e não o armazena, na tragédia anunciada.

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SANTOS NA INVASÃO DO AMBIENTE – X
Aquecimento global e soluções

A atmosfera não reflete a energia radiada pela Terra. Os seus gases, principalmente o dióxido de carbono, absorvem-na. E se radia, é apenas porque tem uma temperatura finita e não por ter recebido radiação. A radiação que emite nada tem que ver com a que foi absorvida. Tem um espectro completamente diferente.

O efeito estufa, embora seja prejudicial em excesso, é na verdade vital para a vida na Terra, pois é ele que mantém as condições ideais para a manutenção da vida, com temperaturas mais amenas e adequadas. Porém, o excesso dos gases responsáveis pelo Efeito Estufa, ao qual desencadeia um fenômeno conhecido como Aquecimento Global, que é o grande vilão.

O problema do aumento dos gases estufa e sua influência no aquecimento global, tem colocado em confronto forças sociais que não permitem que se trate deste assunto do ponto de vista estritamente científico. Alinham-se, de um lado, os defensores das causas antropogênicas como principais responsáveis pelo aquecimento acelerado do planeta. São a maioria e omnipresentes na mídia.

Do outro lado estão os "céticos", que afirmam que o aquecimento acelerado está muito mais relacionado com causas intrínsecas da dinâmica da Terra, do que com os reclamados desmatamento e poluição que mais rápido causam os efeitos indesejáveis à vida sobre a face terrestre do que propriamente a capacidade de reposição planetária.

Ambos os lados apresentam argumentos e são apoiados por forças sociais. A poluição dos últimos duzentos anos tornou mais espessa a camada de gases existentes na atmosfera. Essa camada impede a dispersão da energia luminosa proveniente do Sol, que aquece e ilumina a Terra e também retém a radiação infravermelha (calor) emitida pela superfície do planeta.

O efeito do espessamento da camada gasosa é semelhante ao de uma estufa de vidro para plantas, o que originou seu nome. Muitos desses gases são produzidos naturalmente, como resultado de erupções vulcânicas, da decomposição de matéria orgânica e da fumaça de grandes incêndios. Sua existência é indispensável para a existência de vida no planeta, mas a densidade atual da camada gasosa é devida, em grande medida, à atividade humana.

Em escala global, o aumento exagerado dos gases responsáveis pelo efeito estufa provoca o aquecimento do global, o que tem conseqüências catastróficas. O derretimento das calotas polares e de geleiras, por exemplo, eleva o nível das águas dos oceanos e dos lagos, submergindo ilhas e amplas áreas litorâneas densamente povoadas.

O superaquecimento das regiões tropicais e subtropicais contribui para intensificar o processo de desertificação e de proliferação de insetos nocivos à saúde humana e animal. A destruição de habitats naturais provoca o desaparecimento de espécies vegetais e animais. Multiplicam-se as secas, inundações e furacões, com sua seqüela de destruição e morte.

(*) Paulo Matos é Jornalista, Historiador pós-graduado e bacharel em Direito – http://br.mc597.mail.yahoo.com/mc/compose?to=jornalistapaulomatos@yahoo.com.br - Blog http://jornalsantoshistoriapaulomatos.blogspot.com/

MUDAR O HOMEM / A SOLUÇÃO DO QUEBRA-CABEÇAS

MUDAR O HOMEM / A SOLUÇÃO DO QUEBRA-CABEÇAS

Paulo Matos(*)

Ouvi dia destes uma história de um professor preocupado com seus estudos e afazeres recebendo a visita, até incômoda nesta hora, de seu filho pequeno, de apenas sete anos. Para poder continuar com suas tarefas, recortou um mapa-mundi e deu para o filho montá-lo como um quebra-cabeças. E qual não foi sua surpresa ao ver que em pouco tempo o filho faria o trabalho, ao que ele de pronto questionou como. "É que eu notei que no outro lado da revista, disse o petiz, havia um homem.

E foi só consertar o homem e o mundo estaria recomposto". Impossível não entender como lição, observou o mestre. Certo é que a economia e a sociedade tal como estão e agem deformam o homem infinitamente na sua natureza bondosa para transformá-lo em algo monstruoso, que nunca deixará de ser aquele bebê de sorriso gracioso, que nasce com a missão maior de modificar estas relações e inserir o homem no mundo, em sua natureza e procedimento.

Isto ocorre no enfoque individual e coletivo que nasce, inexoravelmente, da bondade e da solidariedade rasgadas e jamais reunidas de novo como em um quebra-cabeças por que sem algo que oriente esta ação. Todos os que tantaram foram impiedosamente liquidados com crueldade e violência, condicionando suas ações e reações.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Tarquínio, 82 anos

TARQUÍNIO, 82 ANOS - I
Paulo Matos (*)

Em 12 de abril de 2009, Esmeraldo Soares Tarquínio de Campos Filho faria 82 anos. Era o marido de Alda, pai de Esmeraldinho e Débora, vicentino, ex-vereador de Santos e deputado estadual, prefeito eleito da cidade no ano mágico de 1968. Mas se foi aos 55, em 10 de novembro de 1982, quando começava de novo a caminhada à Prefeitura – em uma das grandes tragédias santistas.

Nascido em 12 de abril de 1927 em São Vicente – calunga -, foi eleito vereador em 1960, e deputado estadual dois anos depois, com 7.192 votos, cargo para o qual foi reconduzido em 1966. E homenageado pela imprensa como o melhor da legislatura, personagem célebre da história de Santos como Martin Luther King assassinado no 1968 que não acabou, como Robert Kennedy – personagens que ele conheceu. Era um quadro político nacional.

Tarquínio foi vereador, prefeito, advogado, deputado estadual, engraxate, carregador de caminhão, funcionário de firma de despachos e cantor de orquestra, “peladista” emérito do futebol de praia, não nesta ordem.
Ficou cedo órfão de pai e foi logo se virar. Candidato em 1965 pelo MTR, disputando com Silvio Fernandes Lopes a Prefeitura de Santos, foi impedido de fazer campanha por dois meses e ainda assim perdeu por pouco, oito mil votos. Em 1968 voltaria para a consagração, violentada em 13 de março de 1969.

Na eleição de 1965, a cidade tinha 120 mil eleitores e Silvio teve 42 mil votos, contra 34 mil de Tarquínio. Este, embora derrotado, obteve a espantosa soma de 35 mil votos, aproximadamente. Um ano depois, foi reeleito para a Assembléia com expressiva votação de 32.520 votos. Seu nome vem de Tarquínio, o Soberbo foi o último rei de Roma e o terceiro dos reis Tarquínios.

Advogado, sorridente, negro, alto e forte, cantor de orquestra de voz incrível ao nível do jazz americano, socialista, era uma clara opção de poder popular e chegava em um momento crucial da Ditadura Militar, resposta da cidade reprimida. Mas a alegria popular mais uma vez duraria pouco, pois a violência se abateu novamente sobre a cidade.

Em 1982, quando ele se foi para sempre, trabalhando e fazendo campanha para a que se preconizava votação gigantesca, faltavam cinco dias da eleição em que ele iria voltar à Assembléia Legislativa. Na rota para o “começar de novo”, seu lema nessa época na canção de Elis. Cidadão Honorário de Springfield, capital do Estado de Ilinois, nos Estados Unidos, a Lei Municipal Nº 1.638/98, declara dia 12 de abril o “Dia Municipal Dr. Esmeraldo Tarquínio de Campos Filho”.

O fato é que fomos privados de viver mais esta experiência libertária derivada das eleições de 1968, impedido que ele foi de assumir quando eleito aos 42. Os ditadores não tinham sua grandeza de marchar à frente da passeata dos estudantes em julho de 1968, negro magistral na terra que primeiro fez a Abolição no Brasil e que teve a primeira e única Constituição municipal, que deu o voto às mulheres pela segunda vez no mundo – terra heróica.

Tarquínio começou sua carreira política pelo PSB em 1959, quando se candidatou a vereador e foi eleito com 689 votos, tomando posse em janeiro de 60. Na disputa de Jânio com Lott, Esmeraldo Tarquínio, contrariando a cúpula do PSB, apoiou o primeiro. Por isso, deixou o partido e fundou com amigos a Ação Socialista, sob a presidência do prof. Alípio Correia Neto.

Durante o tempo em que José Gomes foi o prefeito, até ser cassado pela Ditadura, Esmeraldo foi seu líder na Câmara – no compromisso que estendeu por sua vida e em que persistiu com seu sacrifício.
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TARQUÍNIO, 82 ANOS - II
Paulo Matos (*)

Quando seu pai morreu, Esmeraldo Tarquínio, eleito prefeito em 1968 aos 42 anos e impedido de assumir, tinha sete anos e já sabia ler. Sua mãe ensinou. A situação financeira da família não andava bem e não tardou que ela se mudasse para São Paulo. Na Capital, para onde foi com a mãe após a morte do pai, começou o drama do menino pobre. O que não impediu sua subida no esforço do dia a dia carregando caminhão ou vendendo jornal. Mas seu destino estava preconizado: em 1937, ano em que Santos perdia pela segunda vez sua Autonomia, no dia 13 de janeiro mudou-se novamente para Santos, com sua mãe.

Este nosso Tarquínio começou a trabalhar aos nove anos de idade, sem abandonar os estudos. Após anos de trabalho e escola, ingressou na Faculdade de Direito e aos 30 anos formou-se advogado. Disputou e venceu as eleições para a Prefeitura em 1968, com Oswaldo Justo como vice. Foi cassado e continuou a advogar e passou a lecionar. Quando voltava com o lema “Começar de novo” partiria para sempre, a cinco dias da eleição.

Aos nove anos, tornou-se aprendiz de marceneiro. Sobrava tempo ainda para estudar no Grupo Escolar Eduardo Prado. Seu segundo emprego foi como aprendiz de gráfico. Mas, ficou pouco em São Paulo. Em 14 de novembro de 1944 Tarquínio ouviu que podia ser para cantor: Esmeraldo abafou na orquestra de "Nardi e os seus rapazes".

Sua estréia foi no baile do Jabaquara. Favorecido por uma lei de Dutra, em 1950, que beneficiava os que se formavam na época em Contabilidade, fez um cursinho e prestou vestibular para Faculdade de Direito em Niterói. Entre 1.753 candidatos, conseguiu ingressar com uma boa média.

A partir de 1957 abandonou todos os empregos, dedicando-se exclusivamente à advocacia. Várias escolas municipais de diversas cidades da região levam seu nome, além de uma ponte ligando Santos a Praia Grande, entre muitos outros equipamentos públicos. Mas sua memória é ainda mais latente no coração do povo que o escolheu seu herói e seu mestre.

É uma exigência de Santos revirar constantemente sua própria memória e sua história heróica, que se fez no povo e em seus extratos mais proletarizados. Isto se faz em mais este episódio que revela sua expressão de cidade taumaturgo, criadora de milagres e astros humanos, capazes de projetar idéias e sentidos de transformação – e por eles se sacrificam e escrevem passagens de heroísmo.

Tarquínio é aquele que não deixaram ser prefeito e que quando voltava da cassação, depois de ser o melhor deputado estadual escolhido pela imprensa, antes da cidade conquistar sua autonomia mais uma vez levada e poder eleger Tarquínio prefeito, chamaram de volta para ser semente taumaturga geradora de milagres destas terras. Outros virão, portanto.

Junto com Tarquínio a Ditadura cassou 96 políticos, sendo três deputados federais e 92 estaduais – em São Paulo Esmeraldo Tarquínio (que havia sido considerado pela imprensa o melhor da legislatura na Assembléia), Fernando Perrone, Jacinto Figueira Júnior – “o homem do sapato branco” – e Marcondes Pereira.

O filme em cartaz era “A face oculta”, com Marlon Brando e Karl Malden, no cine Caiçara. “General fala à juventude”, informava o jornal. Moacyr Araújo Lopes criticava Marcuse, o filósofo alemão, que segundo ele queria “... desmoralizar e destruir a autoridade”. Pelo mesmo motivo o adoravam em Paris das passeatas e nas capitais do mundo levantando sua foto, na dissintonia vigente entre o poder e a vontade popular naqueles tempos...

(*) Paulo Matos é jornalista, historiador pós-graduado e bacharel em Direito
E está escrevendo o livro “As Autonomias nacionais da Santos libertária!”.

terça-feira, 17 de março de 2009

O BONDE DO FUTURO

Paulo Matos (*)
Impossível enquadrar o bonde longe da ótica do sistema econômico que precariza as relações de trabalho. Um grande mistério cerca este país e as nações dependentes do sistema econômico capitalista centralizado: é a norma que determinou a extinção dos bondes como meio de transporte coletivo eficiente e não poluente, confortável. O que sobrou para os países dominados foi a estratégia do capitalismo monopolista de sucateamento das condições de vida da população, por mais lucro.

A previsão é de que tudo piore - e muito -, com o "enxugamento" de custos e mão de obra para elevar os lucros e alimentar um sistema autofágico e criminoso que tem data final marcada e sempre adiada que mata seus consumidores.

Tínhamos relativamente mais bondes há 50 anos atrás do que ônibus hoje, imagine a superlotação e a crueldade do serviço atualmente. Lá, como serviço, o TC é subsidiado, aqui, objeto de exploração no radical da expressão.

Aliás, esse sistema econômico que transforma tudo em dinheiro transformou também o transporte em empreitada e liquifez qualquer característica de serviço - onde todos só querem tirar o seu e acumular, acumular, acumular como aquela zebra que fazia propaganda da loteria esportiva...

Faz parte de nosso mundo e de seus conceitos arbitrários que matam pela fome e pela guerra, quando não pela poluição e pela exploração abjeta, essa mudança de ótica. Quando se obriga a distâncias se obriga ao transporte como serviço - e tudo o que fazem é entregar a um mega-empresário todo o transporte brasileiro que ele mantém como o trabalho escravo encontrado em suas fazendas na Bahia.

Acabou o frescor, o "ronronar" do bonde, o vento no rosto, a opção pelo estribo, a beleza de seus metais e bancos brilhantes, seus funconários bigodudos e uniformizados de cáqui e gravata. Sobrevivem explorados trabalhadores liquidados pela dupla função no enxugamento máximo da dupla tarefa de cobrar e dirigir, desesperados que cometem acidentes constantes em veículos de carga adaptados. Gente que dá sumiço nos trólebus previstos em contrato em cláusulas que nem promotores e juízes dão jeito...

O retorno ao padrão bonde implica em se mudar o sistema, tendo como alvo os usuários e não o lucro de uns poucos que se pagam por baixo dos panos em transações covardes feitas à custa do sacrifício de pessoas, a quem chamaram de "escravos modernos" - os usuários do transporte coletivo nas cidades, sofridos, esmagados, sacudidos, a espera, pagando caro, calorentos, em carros fechados de janelas trancadas feitos de lata. Sobrevivem os bondes em cidades "atrasadas" da Europa.

Diziam que eles atrapalhavam os carros mas, por sua natureza coletiva, gregária, eram os carros que os atrapalhavam. A expansão capitalista do transporte individual criou o caos urbano da fumaça e da morte, quando poderíamos salvar as metrópoles com transporte coletivo eficiente para impedir o desastre e até a "alegria" de espécies como Maluf que disse ficar contente em ver as ruas repletas de carros parados porque isso para ele era "progresso"! E que "progresso" esse que nos traz o estado capitalista, repleto de dor e sofrimento para a espécie humana e submetida a ditaduras arbitrárias que só criam modelos de morte. Ah, que saudades do bonde do futuro!