domingo, 20 de julho de 2008

LIBERDADE DE MATAR I - O DRAMA DA LEI SÊCA

Liberdade de Matar I - O Drama da Lei Sêca

Paulo Matos

O livro de Graciliano Ramos, um clássico da literatura brasileira, ao discorrer sobre a fome no sertão não previa que sua história podia se transferir de Vidas Sêcas para O DRAMA DA LEI SÊCA. Acusaram de tudo a decisão governamental, de autoritária, ineficiente e o escambau. Disseram que veio na forma errada, que deveria ter sido lei e não portaria ou regulamentação, o diabo. Expressivos juristas opinaram e disseram que aquilo não ia funcionar, que era contra o direito e coisas assim. Mas as vozes vão se calando quando é divulgada a salvação de vidas humanas, argumento por vezes submetido ao direito do lucro e da livre iniciativa, artigo cento e setenta da Constituição e tal.
A redução de 635 nos acidentes de trânsito, de 50% das mortes e de quebra no aumento dos ganhos dos meus amigos taxistas são boas notícias. Poderia o Lula ter impedido que a lei que proibia esta propaganda canalha dos venenos mortais das bebidas alcoólicas perdesse a urgência na votação e entrasse na fila, como entrou. Foram "pressões" dos donos do poder de fato. Cascione, quando caiu do comando do DETRAN, fez uma reunião e contou o que passou com Cabral. Que na ausência deste recebeu um telefonema do Roberto Marinho dizendo que "se esse negócio de proibir propaganda de bebida alcoólica não parar o barulho vai ser tão grande que nem ele vai aguentar". Não exageram quando criticam o presidente por seu suposto hábito alcoólico? Pois agora tomem rígidas restrições de um problema histórico que só agora vai ter solução.
Mas insistem os grandes da publicidade, rígidos defensores da "liberdade de informação". Ora, nem é "liberdade" nem é "informação', aspas,aspas. Propaganda não é informação, é imposição. E liberdade não é a sujeição, mas domínio e afirmação humana, na visão de Marx e Engels. Eles aceitam a tese de Spinosa, liberdade como conhecimento da necessidade, enquanto Hegel a concilia com a história. A liberdade é, pois, a consciência histórica da necessidade. Que não pode ser a liberdade de matar ou agredir o coletivo social - e seus elementos vitais - com falácias sobre venenos letais.
Essa "liberdade" da propaganda alcoólica é a reivindicação do direito da coação psicológica externa. E o homem determinado externamente – e não por ele mesmo – é escravo, escreveu Spinosa. A liberdade não é somente a sujeição consciente à natureza, mas domínio do homem diante dela. Se libertando desse valor inserido pelo sistema econômico, abstraído do ato humano, subjetivo psíquico e imoral – porque não realizado voluntária e ou conscientemente. Mata quantos a imposição sobre o "sabor" da cevada amarga?
Veículo da destruição de vidas, carreado pela manifestação liberada de incentivo às práticas anti-sociais, a propaganda de bebidas exige ser contida. A legitimação dessa atitude encontramos nos pressupostos da Razão, lançada na França há mais de dois séculos com os filósofos iluministas, semeadores da Revolução Francesa – avanço divisor de águas da história humana. Como Jean-Jacques Rousseau, o autor do Contrato Social. Nele, as pessoas estabelecem seus limites, para viver em sociedade.
Depois, mais argumentos pela proibição da propaganda de bebidas alcoólicas.

LIBERDADE DE MATAR - II

Liberdade de Matar - II

Paulo Matos

Porque proibir a propaganda de bebidas alcoólicas? Ora, diriam os seus defensores e dos lucros, "porque o alcóol só é danoso para quem o utiliza de maneira irresponsável". É não, diria a gente, porque o que ele causa de desgraça é infinito! Olha, como dizia o Rousseau, na sociedade primitiva o homem vivia em estado de natureza, sem controle ou leis. Isso proporcionava amplos direitos ao indivíduo, mas liberava aos demais a invasão deles, restringindo-os. Você podia fazer o que quiser desde que os outros mais fortes deixassem. Antigamente, era a "Lei da Selva". Na sociedade organizada, por razões de auto-preservação, era preciso instituir um contrato social. Em que o homem perdia a liberdade natural, mas ganhava a liberdade civil - delimitando os espaços da liberdade de cada um, para que ela possa ser exercida. E é nisso que a gente entra, porque não podemos deixar que um povo inteiro receba a mensagem venenosa sob uma capa colorida.Em nossa sociedade, construída na base do contrato ou pacto social, uns com os outros, os direitos de liberdade são relativos. São limitados e condicionados pelo estado, em nome de seus representados -, que deve proteger e garantir a vida e seu exercício. Pedra angular da democracia, como a definiu Aristóteles, é positivo o direito à liberdade enquanto faculdade individual de autodeterminação, mas irracional quando permite a aniquilação do outro. Quando a liberdade é atacada pelo estímulo aos valores negativos - como ao uso do alcóol, entre outras prazeres mortais - como valorizam hedonistas qualitativos, que defendem o prazer mas o qualificam, como John Stuart Mill.Princípio e fim da democracia, a liberdade traz o ônus das limitações. É negativa quando depende da abstenção do estado. Não intervindo, por exemplo, nas manifestações do pensamento, garantindo-se, por decorrência, o seu exercício. Ela é absoluta, sim, mas sua manifestação é ato exterior, que entra no mundo jurídico. E, portanto, está sujeita à função disciplinadora do estado, do qual exige-se a proteção coletiva - que não pode eliminar sua essência - a de defender a população. Mas há plenas condições de identificar e separar a livre manifestação e o implante de idéias e hábitos lucrativos para multinacionais impessoais, sociedades anônimas, na razão democrática da sociedade organizada. Para Pontes de Miranda, liberdade absoluta supõe a unicidade do ser livre. E nessa perspectiva, nem Deus seria livre, porque criou as leis do universo, denotando sua relatividade social. Na sociedade moderna, com o desenvolvimento de canais de comunicação poderosos e capazes de dirigir hábitos, culturas e processos sociais sob o controle de pequenos grupos - através da televisão, do rádio, do cinema, dos patrocínios esportivos, da pressão psicológica constante e perseverante sobre os cidadãos -, torpedeia-se o livre pensar. Condicionam-se ações, corrompe-se e degrada-se a sociedade com um prazer não moral, porque de conseqüências más. Expoente liberal, John Locke demonstrou que o estado tem por finalidade defender os direitos humanos - não intervindo na ordem social senão para regulamentar as relações externas da vida do homem em sociedade. Para ele, o homem permanece com o seu direito natural, cumprindo ao estado garantir-lhes o exercício. Locke, como Spinosa, refuta a concepção de Hobbes do contratualismo, para quem ao estado de natureza original contrapunha-se o estado de guerra. Racionalizando-o, afirmando sua razão de que a sociedade é útil. Os homens não transferiram ao estado sua liberdade de pensar, que continua livre. Nem ao seu estado-leviatã de monarcas - nem às forças de mercado, observe-se, capazes de ordenar seu pensamento. O homem é racional e criativo. E pode determinar o bem coletivo.

LIBERDADE DE MATAR - III

LIBERDADE DE MATAR - III
Paulo Matos

Porque devemos firmar o "não" à "liberdade" que querem a indústria das bebidas alcólicas e dos que vivem dela? Ora, porque o filósofo Montesquieu, um daqueles que deram a base da Revolução Francesa, no sentido da razão, argumenta que a liberdade não consiste em fazer o que se quer. Subordina a liberdade à lei, em um raciocínio claro : se um cidadão fosse livre para fazer o que a lei proíbe, já não o seria, pois outros teriam também poder sobre ele. O que traz inerente a igualdade de direitos, que conquistaria o mundo, instituindo o direito comum. Logo, a lei disciplina e garante a liberdade. Diz-se que quem bebe fica "cheio de razão" - e faz bobagens.

A propaganda de bebidas já banida de vários países. Aqui, onde ela é mais eficiente - a massa acata - ela representa a negação da ordem social e do papel do estado. Que permitindo a injeção de veneno daS ampolas de alcóol deixa degradar seu corpo social e descumpre seu compromisso de protegê-lo. É socialmente suicida a admissão de um hábito que mata consumidores e vítimas deles. Que gera o dobro de despesas com a saúde - e a quebra da produtividade de suas vítimas com os impostos que produz. A indústria do alcóol movimenta bilhões de dólares, mas é o único produto no mundo que tem uma relação custo-benefício negativa para a sociedade. Os prejuízos sociais decorrentes do ato de beber são gigantescos, vide acidentes, prisões, agressões...

Quem lucra com isso ? Como admitir esta lógica liberal da defesa de empregos, da produtividade e do lucro? Só se, no processo de exclusão das massas improdutivas e excedentes, adotarem Malthus – o inglês que no fim do século XVIII, propôs superar a insuficiência de alimentos com projetos de ampliação das taxas de mortalidade. Este é mais eficiente. A propaganda alcoólica pela TV, dentro dos lares, atinge indiscriminadamente homens, mulheres, adolescentes e crianças, plantando ilusões de sucesso. Admitir lucro social dessa atividade econômica é inexplicável, fruto de poderosos lobies. Cerca de 90% dos iniciantes tem menos de 18 anos, convencidos pela propaganda.

Para o filósofo Hegel, liberdade é a necessidade compreendida, o conhecimento da necessidade. Não é só teoria, como para Spinosa, mas história – o conhecimento histórico da necessidade. Que não implica em escravizar-se a ela conscientemente, mas a determiná-la. Cabe ao homem liberdade moral, de ação e decisão, com consciência de causa. Necessidade coisificada, fetiche, induzir ao consumo alcólico é negativo. Não é a liberdade um conceito fictício, abstrato e metafísico, mas vital na existência de bilhões de pessoas. Como na máxima de Louis Blanc, de que a liberdade não é só direito, mas poder – que exige seja exercido com regras, para exercício coletivo.

A liberdade não pode mais se tornar apenas privilégio dos mais fortes – favorecendo o predomínio do poder econômico e a escravização do homem pelo homem.Cabe ao estado intervir no equilíbrio entre liberdade e autoridade. ampliado significado ideológico. Liberdade é ousar criar e transformar, não escravizar-se. É
o domínio humano sobre a natureza e sobre a própria natureza. A propaganda alcoólica é inadmissível como a tortura, proibi-la um ato de defesa social. Devemos argüi-la real e suprema, no império da sociedade humana. Vale a pena pensar nisso, antes de você ou ou seus serem vítimas de um destes. A direção está correta.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

1968 I

1968 - I

Paulo Matos

1968: que milhar é essa? Deu na cabeça há 40 anos, comemorados agora. Rebeldia em toda parte, transformação, a juventude aprendia a dizer não. Nascida depois da Grande Guerra, com a pílula e a liberdade começaram a pensar e assumir a grande necessidade de mudar o mundo, que estava arcaico.

Era preciso alterar a ordem da sociedade de consumo, para que dali a 50 anos o planeta não explodisse. Não adiantou, vai explodir mesmo. Em vez de mudar o mundo, fazem tímidas campanhas ecológicas. Os agentes da Revolução de 1968 perderam a guerra. E o mundo vai mesmo explodir porque a sociedade consome mais do que a terra pode dar. Basta ver a falta de alimentos quando os povos da Índia e da China começam a comer. Imagine quando eles tiverem carros, consumirem produtos com embalagem, desperdiçarem água, produzirem o lixo desse consumo...

1968, que não é um mero milhar, foi uma transação planetária que envolveu milhões. Esse ano é uma referência de época de intensa participação juvenil na política e na discussão social. Que significado teria falar nisso nestes tempos? Não se corrigiram os defeitos apontados e nem satisfeitas às condições reivindicadas no planeta em 1968 – que cantava a liberdade. Nos resultados de crimes e tragédias sociais, bombas de fumaça destruindo climas, então vemos o resultado. E podemos compreender o sentido de ouvir estrelas, ora direis, como diria Olavo Bilac.

Não há o que se dizer. É preciso retomar 68, escrevê-lo e debatê-lo, retomá-lo e buscá-lo em sua essência de negação da exclusão em todos os seus sentidos. Tempo de idéias coletivas, de desprendimento, de generosidade, de amor. Por que isso era 1968 no planeta, na “Era de Aquarius” de gente especial como o Capitão Sérgio, que disse NÃO à ordem de bombardear seres humanos com os aviões da Aeronáutica. Era tempo de Maurice e de seu Cinema de Arte, do espetáculo do teatro, da música, da poesia, da pintura do jornalismo militante. Ah, 1968! Amanhã falamos mais desses tempos.

1968 II

1968 – II

Paulo Matos

1968 era o tempo de Martin Luther King, um pastor batista de voz forte, parecido com o nosso herói Tarquínio, que cantava “Eu tenho um sonho” – (“I have dream!”) em seus discursos. Nesse tempo, ele levava neste ano uma passeata de quatro milhões sobre Washington, por igualdade e justiça. Foi assassinado, é claro, há 40 anos, em 1968, em um quatro de abril.

Aqui cem mil forravam de gente a passeata na Cinelândia, no Rio de Janeiro, em junho. Protestava-se contra o assassinato de Edson Luiz, que só tinha16 anos, as cassações, às repressões, aos crimes, à censura. O país não era e não seria jamais um quartel. Essa rebelião se espalhava pela era na França, na Itália, na Checoslováquia, no Brasil e na América do Sul e Latina, nos Estados Unidos, na Alemanha, na Inglaterra, enfim. 1968 foi mundial.

Era uma gente criativa essa de 1968, colorida e de cabelos longos, igual, intelectual e engajada em mega-soluções e ações diretas - que impregnava de alegria uma geração cujas causas ultrapassavam o umbigo que se discute hoje. Ao contrário do que dizem, 1968 começou no Brasil, concomitante aos estudantes de Nanterre, que brigaram por não poder mais visitar as moças nos dormitórios. Aqui, uma manifestação para melhorar a comida do restaurante Calabouço detonou essa ação coletiva.

Em 28 de março tombou Edson Luiz com 16 anos, baleado pela polícia, inaugurando 68 aqui. Um ano que acabaria, no Brasil, com um ato violento em que a Ditadura se baixava pesado, em 13 de dezembro. Eram dez mil cassados e impedidos de atuar na política, o Ato cinco. Temos heróis que denunciavam a tortura, temos os que morreram. E os que foram soltos depois da ação libertária integrada por Gabeira, letra e música, herói.

Mas o que foi 68? Depois de mais três décadas, ainda está em estudo, garantem os especialistas em análises sociológicas, históricas, psicológicas, pois explodiu em diferentes formas no mundo, a favor e contra o stalinismo, contra o racismo, a guerra, a Ditadura Militar brasileira que torturava e proibia, enfim. O espírito de 1968 correu o mundo sem a Internet, que não existia. Foi a globalização da revolta, ansiosa por um mundo novo, produzida pelo espírito de Eros, a exarcebação da vontade, da libido. 1968 foi profético.

1968 III

1968 - III

Paulo Matos

No pós-guerra em que nasciam os jovens que seria a puberdade de 1968, os que queriam parar com aquela estupidez, iniciou-se imediatamente outra guerra. Esta era fria, iniciada antes mesmo de contados os mortos de Hiroshima e Nagasaky, os que a bomba atômica americana matou no Japão. Era a demonstração do genocídio norte-americano, na afirmação da vontade imperial de Tio Sam. Os jovens que nasceram no pós-guerra queriam o cumprimento da Declaração dos Direitos do Homem, das revoluções francesa e norte-americana do século XVIII – mas queriam também ir além.

Os tempos são diferentes destes de hoje, em que se fazem campanhas para buscar os jovens para a política oficial e não os atraem pelo coração, que vai mais longe. Não existem mais as organizações que pensem em abstrato, em idéias – no espírito transformador de 1968, extirpando os vícios sociais e mortais. Que são produto da violência dos tiranos da América Católica, dos europeus que ficaram satisfeitos com a Revolução Francesa e não quiseram seguir. Ou à Guerra do Vietnã que ocupava com manifestações as ruas dos Estados Unidos, no Movimento Hippie ou na Ação Revoltosa dos negros aptos e conscientes da sua igualdade.

Em 1871, no mesmo mês que 1968 explodiria em Paris, os trabalhadores tomavam o poder na cidade. Mas de 21 a 28 de maio 20 mil franceses foram chacinados. Ao escrever sobre o episódio, Karl Marx disse que a Comuna de Paris, o efêmero da direção da sociedade pelos trabalhadores, foi um frustrado “Assalto aos Céus”. 1968 foi assim, mas produziu a substância do Poder Jovem restaurando a razão.

Como 1968 durou tão pouco e significou tanto, para tantos ? Seria a rebeldia secular? Em 1868, depois de reingressar no curso de Direito da São Francisco, em São Paulo, o poeta Castro Alves explodia libertário no Rio de Janeiro para derrubar a escravidão. Era a causa que não viu atingida, até hoje incompleta.

Em 1868 reunia-se a Internacional Socialista para armar as estratégias da redenção dos povos do mundo, nessa marca que germinou 1968. Castro estava nessa. Os dois, o da poesia e o da ilha do Caribe, mesclando materialismo com romantismo, buscando a liberdade além da mera formalidade – adequação ao futuro, desconstrução, desafio como aquele ao Tio Sam. Ah, 1968! Amanhã, 1968 outra vez.

1968 IV

1968 - IV

Paulo Matos

Em 1968, Santos perdia seus bondes abertos, em janeiro. Reconhecida a bobagem de acabar com eles, estão voltando. Era difícil de cobrar a passagem, diziam. Não eram eles que atrapalhavam o trânsito, descobriram. Era o trânsito que atrapalhava o bonde. Santos perdia parte de seus heróicos vínculos com seu passado libertário, abertos como os bondes. Logo ficaríamos sem os bondes abertos e também os fechados, “camarão”. Isto para gozo das indústrias de petróleo e borracha, deixando saudades. Só o Justo os defendeu.

Em outubro acontecia o Congresso da UNE, a União Nacional dos Estudantes, clandestino – era proibido. Levantamos fundos aqui, no festival do Teles. Foi no dia 12, em Ibiúna - ocupado pelo Exército e com 1.240 presos. Nossa pauta é o amor comum. Mas 1968 se explica mesmo por suas frases em Paris e Nanterre:

* Um pensar que estanca é um pensar que apodrece. Reformas: clorofórmio.

*Chega de tomar o elevador: tome o poder!

*Sejam realistas, exijam o impossível! 1968: barricadas fecham as ruas, mas abrem o caminho. É maio, é Paris. Vamos fazer outra vez uma Revolução Cultural contra uma sociedade de robôs?

*A inteligência caminha mais do que o coração, mas não vai tão longe.

*O direito de viver não se mendiga, se toma!

*Abaixo o realismo socialista, Viva o surrealismo! Sou marxista da linha Grouxo!

* Menor de 21 anos, eis a sua cédula de votação - um paralelepípedo.

*Seja jovem, cale a boca. 1968 disse não.

DIREITO DO CONSUMIDOR

Direito do Consumidor

Paulo Matos

Você acredita? Atenção, Dr. Wagner Haddad, que gosta e estuda o Direito do Consumidor, para a decisão recente: uma inscrição indevida no Serasa indenizará por Danos Morais. Foi a sentença da Dra. Selma Baldança Marques Guimarães, MM. Juíza de Direito da 9.ª Vara Cível de Santos. Ela condenou as lojas Casa Bahia, Banco GE Capital e Marabraz. Que terão que pagar em indenização por danos morais o valor equivalente a 20 (vinte) vezes o valor de cada anotação indevida nos cadastros de proteção ao crédito.

O cidadão tentava adquirir sua casa própria quando teve negado financiamento por conta de inscrição no Serasa. Mesmo não tendo realizado qualquer compra nas mencionadas lojas, ele teve seu nome negativado, o que, além dos transtornos que acometem o homem de bem, teve impedido o sonho da casa própria naquele momento.

“Tal situação, além disso, gerou alguma repercussão negativa em relação ao próprio autor que, mesmo ciente de que não possuiu vínculo com os requeridos viu pendendo sobre si a pecha de mau pagador, notadamente quando foi realizar financiamento para aquisição de casa própria”, sentenciou a Magistrada.

O advogado Aldo Santos Pinto, da banca Écio Lescreck e Associados, que representa o Autor da ação, afirmou que “A sentença foi justa, aplicou o melhor Direito, e os valores de danos morais ainda podem aumentar em grau de recurso”. É um exemplo de Direito do Consumidor. Mas como chegará às instâncias superiores? Essa é a questão, diria Shakespeare, onde mesmo? Em Otelo? Foi lá que se criou o método da reconstituição criminal.

A POLÊMICA DAS TORRES

A Polêmica das Torres

Paulo Matos

Nestes 50 anos da bossa-nova, tão bem tocada na Litoral FM pelo João Claudio em "Bossa Nova e Afins", saudades. Saudades dos sonhos de futuro de uma época de democracia e desenvolvimento popular, do Vinicius diplomata e compositor. Hoje, tem gente criticando as torres - estes edifícios altos de mais de 20 andares que se fazem em Santos. Outro dia, de helicóptero, vi milhares na capital, juntos! E, incrível, a terra não afundou.

E nem afundaria, Com as estacas de 50 metros que tem, nunca entortarão - traço de Santos - e nem farão afundar a ilha, é claro. Aqui fizeram umas poucas, mas tem gente criticando, como sempre, equivocados. Mas criticando sem razão e ao reverso de um crescimento sustentável. Armenio quer discutir com os críticos, me disse, neste Tribunal do Litoral - quando chegar de Portugal.

As torres respondem às nossas necessidades de expansão humana e de aumento da população. Bem, lá vão morar pessoas das classes A e B, mas novas moradias entram no mercado, aumentando a oferta. E o pessoal conhece a velha e irrevogável Lei da Oferta e Procura, instituida sabe-se lá quando. A notícia recente é que as torres foram liberadas em Paris. Aqui "sarrafam" a novidade construtiva que se espalha pelo mundo como solução de espaços. Já viram o Prime Plaza, no Gonzaga? Vai fazer crescer a cidade, com 30 andares.

As torres seriam a solução final para a nossa praia, ocupando apenas a terça parte do espaço atual da muralha de prédios, se os substituíssem. Poderíamos criar as teorias as super-quadras, de Corbusier, antigas, equipadas com serviços evitando as viagens. Cerca de 2/3 dos espaços seriam coletivos, com torres de 45 andares. Colocariam fim ao aquecimento da cidade, substituindo o paredão que se construiu com centenas de prédios baixos. Se isto é sonho, vamos, pelo menos, aproveitar melhor os espaços!

A tecnologia da moradia entra na disputa por espaços com o porto que se expande. É um método construtivo evoluído e reconhecido pela arquitetura – maior espaço vertical, menos horizontal, beneficiando o meio-ambiente. Prédios altos diminuem o custo das fundações. Há ainda o importante papel da construção civil nos aspectos econômicos e sociais.

E não há de se falar nos impactos ambientais, de se falar em grandes garagens provocando o aumento dos carros, pois estas guardam e não criam veículos. As torres são a tecnologia mais desenvolvida para reduzir o impacto ambiental. Garantem o sol e o vento aos seus moradores e à cidade. Elas crescem para o alto, verticalmente. Diminui a área horizontal ocupada. Poderíamos, com as torres, nos livrar do paredão na praia.

A arquitetura com tecnologia podem evoluir sim as condições ambientais e impedir os impactos negativos. As novas construções estão na praia e vão para as classes A e B. Mas logo estarão no Marapé e na Zona Noroeste, para a classe C. No centro, para preservar as construções antigas e históricas, teremos que fazer uma mescla do velho e do novo, com torres - e muito cuidado com a tecnologia dos bate-estacas, pois não pode haver sombra de trepidação. A geração de empregos e renda temporários (na construção) e permanentes, nos estabelecimentos e no consumo que gerarão estes novos empreendimentos São fatores que completam o clima favorável. Os críticos não tem a mínima base técnica ou teórica, são apenas saudosistas da paz dos cemitérios.

Assim, antes que a voz repetida contra as torres de alguns vire verdade, como reconheceu aquele ministro alemão nazista, tal de Goebels, é preciso esclarecer e retomar os fatos como eles são. Isto para que o crescimento necessário, que gera novos equipamentos urbanos, seja permanente. Não poderemos ficar desatentos e muito menos nos opormos a esta onda. Isto sob pena de sermos jogados do bonde da história, que, aliás, está voltando. Queremos almoçar no bonde-restaurante e visitar as torres, na cidade que já teve a maior rede elétrica de bondes da América do Sul, em 1917. Tudo para que a cidade-mãe acolha seus filhos, que são todos os que vierem para cá.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

O DESTINO DOS RECURSOS PÚBLICOS "O TRISTE DESTINO DOS RECURSOS PÚBLICOS"

O DESTINO DOS RECURSOS PÚBLICOS "O TRISTE DESTINO DOS RECURSOS PÚBLICOS"

Paulo Matos

É curioso como somos desprezados em nossas opiniões sobre o que deve ou não deve ser feito com os recursos financeiros que, dizem, devemos determinar. Eles, do governo, aplicam os recursos chamados públicos, onde querem e quando querem. Compram, montam e vendem empresas públicas ao bel-prazer. Mandam no país e o pior, nas cidades – que são o único território “de verdade”, o resto é ficção jurídica.

Pior mesmo é que, assim, jamais chegaremos à cidade “aconchegante como um colo de mãe”. É um cartaz elaborado por alunos de uma escola de Caxias do Sul, no Rio Grande de Brizola, durante atividades lúdicas do “Congresso das Crianças”. É uma utopia, mas que pode ser cada vez mais real se criarmos a relação simples e fácil da organização das pessoas e as consultas públicas. De verdade, não como estas instituídas pelo Governo federal e que sonhávamos amplas.

O fato é que de repente elegeram prioridade a instalação de gás e para isso rasgam a cidade na implantação dos canos. Ganharemos com isso? A resposta é não, é mais caro. Mas porque será que fizeram isso? Será porque venderam a estatal do gás e veio junto (ou separado) um contrato de 30 anos para fornecimento? E a água? E o esgoto? E tantas e tantas coisas. Como? Colocaram um monumento na Plataforma do Emissário? O parque, dizem, custará 8,5 milhões, com grana de alguns e da Prefeitura.

Mas a área não está sub-judice, quer dizer, dependendo de decisão para ver se fica ou é removida? Então como jogar essa grana toda no parque? E as favelas, palafitas, barracos? Devemos restituir à cidade as funções maternais, nutridoras da vida, escreve Lewis Munford, no livro “A cidade na história. Mas para fazer isso, temos que mudar nossos conceitos de democracia e evolui-los, essa “democracia” que Saramago põe aspas – porque só permite mudar as peças, não o tabuleiro.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

ART - LIBERDADE DE MATAR

LIBERDADE DE MATAR

Paulo Matos

Em ato de defesa social, querem proibir a propaganda de cigarros – e seus fabricantes reclamam a liberdade de fazê-la. Mas que liberdade é essa? Liberdade, na verdade, implica em conhecimento da necessidade, que escapa à mera vontade. É a consciência de agir, sem algo que o determine, como o impulso ao desejo das campanhas publicitárias do cigarro. Que fazem crer seja ele sexy e viril.

Liberdade não é a sujeição, mas domínio e afirmação humana, na visão de Marx e Engels. Eles aceitam a tese de Spinoza, liberdade como conhecimento da necessidade, enquanto Hegel a concilia com a história. A liberdade é, pois, a consciência histórica da necessidade. Que não pode ser a liberdade de matar ou agredir o coletivo social - e seus elementos vitais - com falácias sobre venenos letais.

Essa liberdade de propaganda do cigarro é a reivindicação do direito da coação psicológica externa. E o homem determinado externamente – e não por ele mesmo – é escravo, escreveu Spinosa. A liberdade não é somente a sujeição consciente à natureza, mas domínio do homem diante dela. Se libertando desse valor inserido pelo sistema econômico, abstraído do ato humano, subjetivo psíquico e imoral – porque não realizado voluntária e ou conscientemente. Matam nove por minuto.

Veículo da destruição de vidas, carreado pela manifestação liberada de incentivo às práticas anti-sociais, a propaganda do cigarro exige ser contida. A legitimação dessa atitude encontramos nos pressupostos da Razão, lançada na França há mais de dois séculos com os filósofos iluministas, semeadores da Revolução Francesa – avanço divisor de águas da história humana. Como Jean-Jacques Rousseau, o autor do Contrato Social. Nele, as pessoas estabelecem seus limites.

Para Rousseau, na sociedade primitiva o homem vivia em estado de natureza, sem controle ou leis. Isso proporcionava amplos direitos ao indivíduo, mas liberava aos demais a invasão deles, restringindo-os. Na sociedade organizada, por razões de auto-preservação, era preciso instituir um contrato social. Em que o homem perdia a liberdade natural, mas ganhava a liberdade civil - delimitando os espaços da liberdade de cada um, para que ela possa ser exercida.

Em nossa sociedade, construída sob a égide do contrato ou pacto social, os direitos de liberdade são relativos - limitados e condicionados pelo estado, em nome de seus representados -, que deve proteger e garantir a vida e seu exercício.

Pedra angular da democracia, como a definiu Aristóteles, é positivo o direito à liberdade enquanto faculdade individual de autodeterminação, mas irracional quando permite a aniquilação do outro. Quando a liberdade é atacada pelo estímulo aos valores negativos - como ao uso do tabaco, entre outras prazeres letais -, como valorizam hedonistas qualitativos como John Stuart Mill.

Princípio e fim da democracia, a liberdade traz o ônus das limitações. É negativa quando depende da abstenção do estado. Não intervindo, por exemplo, nas manifestações do pensamento, garantindo-se, por decorrência, o seu exercício.

Ela é absoluta, sim, mas sua manifestação é ato exterior, que entra no mundo jurídico. E, portanto, está sujeita à função disciplinadora do estado, do qual exige-se a proteção coletiva - que não pode eliminar sua essência.

Mas há plenas condições de identificar e separar a livre manifestação e o implante de idéias e hábitos lucrativos para multinacionais impessoais, sociedades anônimas, na razão democrática da sociedade organizada. Para Pontes de Miranda, liberdade absoluta supõe a unicidade do ser livre. E nessa perspectiva, nem Deus seria livre, porque criou as leis do universo, denotando sua relatividade social.

Na sociedade moderna, com o desenvolvimento de canais de comunicação poderosos e capazes de dirigir hábitos, culturas e processos sociais sob o controle de pequenos grupos - através da televisão, do rádio, do cinema, dos patrocínios esportivos, da pressão psicológica constante e perseverante sobre os cidadãos -, torpedeia-se o livre pensar. Condicionam-se ações, corrompe-se e degrada-se a sociedade com um prazer não moral, porque de conseqüências más.

Expoente liberal, John Locke demonstrou que o estado tem por finalidade defender os direitos humanos - não intervindo na ordem social senão para regulamentar as relações externas da vida do homem em sociedade. Para ele, o homem permanece com o seu direito natural, cumprindo ao estado garantir-lhes o exercício.

Locke, como Spinoza, refuta a concepção de Hobbes do contratualismo, para quem ao estado de natureza original contrapunha-se o estado de guerra. Racionalizando-o, afirmando sua razão de que a sociedade é útil. Os homens não transferiram ao estado sua liberdade de pensar, que continua livre. Nem ao seu estado-leviatã de monarcas - nem às forças de mercado, observe-se, capazes de ordenar seu pensamento. O homem é racional e criativo.

Montesquieu, no mesmo sentido da razão, argumenta que a liberdade não consiste em fazer o que se quer. Nem admitindo sua eliminação, nem advogando ser privilégio absoluto de poucos por razões divinas, como o que garantia o poder aos reis no absolutismo. Subordina a liberdade à lei, em um raciocínio claro : se um cidadão fosse livre para fazer o que a lei proíbe, já não o seria, pois outros teriam também poder sobre ele. O que traz inerente a igualdade de direitos, que conquistaria o mundo, instituindo o direito comum. Logo, a lei disciplina e garante a liberdade.

A Constituição Francesa de 1791 dizia que liberdade “...consiste em fazer tudo que não prejudique a outrem”, conceito reafirmado pela Constituição girondina de 1793. Que vai dar no dito popular a liberdade de cada um começa onde termina a liberdade do outro, conhecida em todos os rincões. A liberdade e a vida, ressalte-se o patrimônio maior, em que não se pode admitir tergiversações.

A propaganda de cigarros, banida de 27 países, 5 deles da União Européia, que mata 80 mil por ano no Brasil, representa a negação da ordem social e do papel do estado – que a permitindo deixa degradar seu corpo social e descumpre seu compromisso de protegê-lo.

A admissão da preconização de um hábito que mata 50% dos consumidores e que gera o dobro de despesas com a saúde - e a quebra da produtividade de suas vítimas com os impostos que produz -, é autofágica. A indústria da nicotina movimenta bilhões, mas é o único produto no mundo que tem uma relação custo-benefício negativo para a sociedade.

Como falar em liberdade para o cigarro, quando ele é a antítese? Os prejuízos sociais decorrentes do ato de fumar, os cânceres e efizemas pulmonares, as úlceras produzidas, gargantas aniquiladas em série pelo hábito cigarreiro que não canta são gigantescos.

Quem lucra com isso? Como admitir esta lógica liberal da produtividade? Só se, dissimuladamente, no processo de exclusão das massas improdutivas e excedentes, adotarem Malthus – o inglês que no fim do século XVIII, propôs superar a insuficiência de alimentos com projetos de ampliação das taxas de mortalidade. Este é mais eficiente.

No cigarro existem 50 substâncias cancerígenas e 4 mil substâncias químicas deletérias. Sua propaganda pela TV, dentro dos lares, atinge indiscriminadamente homens, mulheres, adolescentes e crianças, plantando ilusões de sucesso. Admitir lucro social dessa atividade econômica é inexplicável, fruto de poderosos lobies. Cerca de 90% dos iniciantes tem menos de 18 anos, convencidos pela propaganda.

A liberdade de propaganda de venenos como cigarros, ao mesmo tempo em que se se despendem volumosos recursos na repressão às drogas ilícitas, é irracional. Drogas não só aquelas assim definidas pela moral vigente: existe a ética, sua ciência. Defini-las como mal não é um problema moral/particular, mas geral/ético. É social o interesse dessa restrição, em tempos de avanço, da descoberta do seqüenciamento do genoma, decifrando o código genético humano.

Para Hegel, liberdade é a necessidade compreendida, o conhecimento da necessidade. Não é só teoria, como para Spinosa, mas história – o conhecimento histórico da necessidade. Que não implica em escravizar-se a ela conscientemente, mas a determiná-la. Cabe ao homem liberdade moral, de ação e decisão, com consciência de causa.

Necessidade coisificada, fetiche, induzir ao fumo é axiologicamente negativo. Não é a liberdade um conceito fictício, abstrato e metafísico, mas vital na existência de bilhões de pessoas. Como na máxima de Louis Blanc, de que a liberdade não é só direito, mas poder – que exige seja exercido com regras, para exercício coletivo.

No escombro das teorias liberais, chegaram as teses de direito social, subordinadas ao direito da sociedade e não apenas do indivíduo, admitindo-se a intervenção do estado nessa perspectiva. Cresceu a compreensão de um direito coletivo: a liberdade não pode mais se tornar apenas privilégio dos mais fortes – favorecendo o predomínio do poder econômico e a escravização do homem pelo homem.

Cabe ao estado intervir no equilíbrio entre liberdade e autoridade. Mas modernamente, suas prerrogativas são usurpadas por atores sociais poderosos, que escapam do controle democrático e atuam no cenário do chamado poder econômico. Conspurcando acintosa e impunemente, na fumaça falaciosa e venenosa da globalização, as consciências. Tal como os ingleses faziam com a China no século passado, enchendo-a de ópio. Quando os chineses protestaram, tomaram-lhe Hong-Kong.

Nesse processo, não é ousadia dizer que este avanço - contra o mundialmente poderoso setor industrial - tem um ampliado significado ideológico. Liberdade é ousar criar e transformar, não escravizar-se. É o domínio humano sobre a natureza e sobre a própria natureza. A propaganda fumígera é inadmissível como a tortura, proibi-la um ato de defesa social. Devemos argüi-la real e suprema, no império da sociedade humana.

LIBERDADE DE VIVER

FIM

O ROUBO NA PETROBRÁS, NEM NOVO E NEM INÉDITO

O ROUBO NA PETROBRÁS, NEM NOVO E NEM INÉDITO

Paulo Matos

A retirada de computadores com segredos do petróleo descoberto na bacia de Santos, a maior do país, não é um fato novo e nem inédito e suas descrições individuais englobam um enorme e portentoso assalto internacional ao Brasil. José Bach, um “sábio” alemão que descobriu petróleo em Riacho Doce, em 1918, dias antes escrevera uma carta para a polícia do Estado de Alagoas pedindo proteção, morreu afogado logo após.

É o que conta Monteiro Lobato, em histórias nada infantis – ele que em 1937 produziria o “Jornal do Petróleo”. Suas denúncias e afirmações se confirmariam, mas por não terem sido reconhecidas em tempo o Brasil perderia a corrida ao poder mundial assenhoreado pelos produtores maiores do petróleo.

Pinto Martins, que adquiriu os direitos da viúva de José Bach, vai a Londres e NY e viabiliza a exploração, recebe prêmio do Congresso e o epíteto de herói. Manda um telegrama anunciando a assinatura do contrato em três dias e antes disso “suicida-se!” em um quarto de hotel. Edson Carvalho denuncia a ameaça sobre ele em fatos paralelos e o engenheiro italiano Barzaretti, que se dispõe a explorar o petróleo de Mato Grosso no Pantanal que descobrira, é assassinado.

Assim, enquanto os Estados Unidos abriam 380 mil poços, o Brasil perfurava...65! Lá 70 poços por dia, aqui quatro por ano. É que eles não tinham um serviço geológico comprometido como o nosso, explica Lobato capangas no assalto de antanho. Em 1908, a Argentina já produzia 12 mil barris, nenhum por aqui. O Peru iniciara a exploração em 1900, a Colômbia em 1922 e a Venezuela em 1917, anos em que já produziam à larga.

Nessa época, baseados em estudos que garantiam que toda a América do Sul tinha petróleo, mas o Brasil não, mostrava-se o comprometimento de figuras como o Dr. Fleury da Rocha com a Standard Oil de Rockfeller e a Royal Ducht & Shell, que queriam consumidores e não produtores e dominavam bancos, jornais e governos. Era o que Lobato chamava de “interesses ocultos”.

O geólogo Gustav Grossman diz nessa época que o Brasil pode ser o país que tem mais petróleo no mundo, mas o governo diz que não e prende e mata quem disser o contrário. Nosso Ripasarto passo longos anos no Carandiru, presidente da Associação de Defesa do Petróleo em 1947. Atitudes legais e ilegais foram feitas para que o Brasil não tivesse petróleo. Agora conseguiriam interromper o nosso gás roubando os segredos?

Monteiro Lobato, quando escreve sobre o tempo em que o petróleo era “proibido de existir”, na sua expressão, matava-se quem o descobrisse e mesmo quem defendia a campanha “O petróleo é nosso” – como o estivador santista Deoclécio Santana em 1947 – publicou o que era seu depoimento para a comissão do inquérito do petróleo nomeada pela Presidência da República e aberto pelo Ministério da Agricultura.

A empresa petrolífera de Lobato “Companhia Petróleos do Brasil”, fundada em 1932, foi torpedeada por Fleury da Rocha que negava equipamentos, ele que era diretor do Departamento Nacional de Produção Mineral.

Em seu livro editado em agosto de 1936 intitulado “O escândalo do petróleo e do ferro – depoimentos apresentados à Comissão de Inquérito sobre o petróleo”, Lobato narra os episódios de Otávio Brandão, que escreveu “Canais e lagoas” em 1919 – em que lamenta que o Brasil se esquivasse da missão de explorar o ouro negro em Alagoas e conta dos impedimentos impostos pelos dirigentes do Governo para bloquear a exploração petrolífera.

O livro de Essad Bey “A luta do petróleo”, traduzido por Lobato, elucida a questão elucida a questão e explica a campanha “não há petróleo” ao mesmo tempo em que os trusts adquirem terras não para explorar, mas para não deixar explorar. Em 1938, o Brasil cede 750 mil dólares para explorar petróleo na Bolívia, o mesmo oficial que levou sete anos para oferecer a Oscar Cordeiro uma sondinha de 500 metros. E ele descobrira o poço de Lobato.

Os trusts conseguem juntos aos seus aliados no Governo a “Lei de Minas”, que tranca qualquer exploração no subsolo, ao tempo em que eles adquiriam as terras petrolíferas. Lobato amargura-se pelos 12 anos que sofreu para que o Brasil tivesse petróleo e teria ficado contente com o nome da cidade em que ele surgiu na Bahia em 1939, em um 22 de janeiro: Lobato!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A NÓS A LIBERDADE

A NÓS A LIBERDADE
Uma história real de 1997

Paulo Matos


Ela é ampla, indefinível por sua extensão, usual na sua prática. Sem ela inexistimos como seres vivos. Fugaz, estado de espírito, concreta, fundamental, é o mínimo de espaço individual que desfrutamos no universo pessoal, que é gigante em cada um. Perdemos quando pensamos ser invasora do alheio, vencemos quando a defendemos como conquista humana.

Somos, nós mesmos, um mundo mesclado de emoções, que tem nela substância de existência e o estímulo para viajar aos céus - também para mergulhar nos infernos da consciência ultrajada pelo seu não exercício voluntário. Acracia, alegria, anarquia, virtude com Buda, amor com Jesus, filosofia dos gregos, inspirou Spártacus e Zumbi, tomou a Bastilha. A onda libertária ultrapassa muralhas e cadafalsos em cavalgada, célere. Os poderosos não a querem como escolta, tropel que desperta.

Naquele dia, naquela noite na classe, convivendo com violenta gripe que me tirara a voz, ouvir a mestra vociferar contra um jornalzinho apócrifo, o “Anaconda”, que ridicularizava outra professora - e que circulava na Faculdade de Direito – me incomodava. Era a liberdade de expressão em jogo. Esta não tem significado aparente, a não ser para os lutaram por ela em tempos recentes, que sentiram sua falta do fundo do peito. Como na época em que o “Estadão” publicava receitas de bolo no lugar das notícias censuradas.

A liberdade tem múltiplas faces, depende sempre de nossa perspectiva, pela qual medimos sua amplitude. Fazer ou não, para muitos, é sua essência. Utilizá-la ao máximo é a senha de crescimento espiritual e coletivo: os homens se agigantam com ela, os povos atingem suas metas no seu gozo. O ser humano é pequeno quando está satisfeito, é menor quando se aperta o medo em seu peito, mas gigante quando junta o anseio ao pulmão, já diria a letra do mágico Taiguara. Reprimi-la sob o argumento de ordenar os caminhos a percorrer, por alguém fora de nós, é crime grave, gera dor – atentado, violência, homicídio e genocídio, quando praticado contra a sociedade.

Quando senti que o discurso da mestra se inclinava a caçar os anônimos autores, na mensagem que contaminava o conjunto dos alunos, que já se dispunham a dela participar, me exasperei. A submissão tem limites. Certo que o desejo dela era apenas de vingança, o dos estudantes de agradar a professora e obter a difícil nota. Mas aquilo me sugeria algo como o ovo da serpente, aquele que você vê no interior o perigo germinando. Não, não poderia voltar a ditadura e a censura a violência, a opressão. Não. E aquele era um sintoma.

Sua ausência aniquila vidas e sonhos. Há momentos em que a lei liberta e a liberdade oprime, mas quando seu significado é distorcido, confundida com liberalismo - que é a liberdade dos donos do dinheiro de exercer o poder decorrente para explorar e massacrar sem normas, livremente.

Seu anteposto é, a ditadura, a coerção, a imposição, a opressão, a censura. Aquele que colocar a mão sobre mim para me ordenar é um usurpador, é um tirano: eu o declaro meu inimigo, disse Pierre-Joseph Proudhon, o chamado fundador do anarquismo, que não é senão a negação do poder, – a, o não do grego, archos, poder. Não ao poder!

II

Apesar da rouquidão, era necessário. E brotou em mim um discurso libertário em defesa das garantias conquistadas após duas décadas de ditadura, seus sacrifícios, suas vidas perdidas. Lembrei suas vítimas, nossos esforços e batalhas, a resistência. Não, esta ninguém vai rasgar, ainda mais aqui, no ambiente da Faculdade de Direito, onde se cultuam as liberdades e as garantias.

Aprendemos a valorizar a liberdade pelo seu contrário, repudiando as formas que a querem aniquilar negando a vida. Cedo, em tenra idade juvenil, nos retratos de miséria contra as quais lutava D. Helder Câmara e o seu Ação, Justiça e Paz, há mais de 30 anos. Na repressão aos que explanavam seus ideais coletivistas, comunitários, obrigados a denunciar nas paredes frias da madrugada com spray, pintando nos muros as palavras de ordem libertárias da revolta, necessárias.

Um dia, o interventor paulista, o governador nomeado pela ditadura, Abreu Sodré, vinha visitar a Sociedade Italiana, na Avenida Ana Costa, em frente ao Centro dos Estudantes, o escritório central da subversão, como chamavam. Era 1968. Queríamos falar e escrever dos direitos de todos, não deixavam.

A gente não quer só comida, a gente quer diversão e arte... Queríamos mais: opinar no país! Mas um coronel-professor me expulsava da escola depois dessa prisão, apesar dos poucos 16 anos. Eles matavam nas ruas. Saímos dos manifestos para ações de resgate de direitos. Era preciso.

Era o fim de 1968. Uma faixa negra se ostentava à frente desta entidade de que eu era parte, corpo e alma. Os fascistas do Mackenzie haviam matado Guimarães, um estudante da Filosofia da USP, depois que a Polícia Militar havia dado um tiro no peito de Edson Luiz de Lima Souto, 16 anos, pedindo um melhor restaurante estudantil, o Calabouço – no RJ.

Estávamos de luto. Mas era verão e o negro da faixa havia sido desbotado pelo sol. Subimos na janela e a colocamos do avesso, para reforçar nossa mensagem negra de repúdio à violência que se instalava. Seria minha primeira prisão.

Os agentes com seus ternos pretos invadiram o Centro dos Estudantes e fomos presos – eu e o Thomé –, direto para o Palácio da Polícia, na avenida São Francisco, DOPS, polícia política. O delegado era ninguém menos do que Paulo José de Azevedo Bonavides, que dá seu nome ao troféu do Premium Literatum. Mas quanta coincidência! Opressor? Não, era apenas um policial na carreira da polícia civil, designado. A vida nos leva a descaminhos, a trilhas indesejadas, sobre as quais não temos tempo de refletir e redefinir. Cumpria ordens.

A força instrumentaliza a todos que deseja, desfaz seus dons, manipula, escraviza. Certa feita, décadas após, tive a oportunidade de perguntar-lhe se fazia aquilo com gosto. Ele freqüentava eventos literários, escrevia. Era um homem sensível, da poesia e do poema, onde colocava seu coração liberto das brutalidades humanas. Separava os mundos. Conseguia.

O DOPS – Departamento de Ordem Política e Social, era uma moça, se comparada aos DOI-CODIs e OBANs que viriam. E que matariam na tortura muitos seres vivos, suprema afronta à liberdade - como o jovem estudante de geologia Alexandre Vanuchi Leme, em 1971, tempos de chumbo. Tinha só 23 anos, era cristão e leitor de Chardin.

Resistimos. Depois, foram prisões em série, escrevendo em muros, distribuindo panfletos, pulando muros, incentivando greves, gritando em passeatas, distribuindo jornais clandestinos, denunciando torturas e mutretas governamentais, em tempos proibidos. Há, a liberdade!

III
O discurso em classe, pelo impacto que causou naquele momento em que se pretendia reiniciar a caça às bruxas, a perseguição intelectual que faz nascer o autoritarismo, o ovo da serpente, fez calar a mestra e uma centena de possíveis algozes. Fez pensar. “Eu acho que fiz história”, confidenciei à colega Vera. “Evitamos o pior”, que seria o prosseguimento de uma prática que tantos desatinos havia causado na história do mundo e do país, da humanidade. A nós a liberdade. Não passaria em branco: ficaria marcado.

Jamais me afastei deste amor insano à liberdade. Ao contrário, amadurecendo me fiz apaixonado compulsivamente, detrator implacável de qualquer de seus antagônicos germinativos do totalitarismo, do ovo da serpente – e que ela aparece nítida em seu interior, ainda inofensiva. Qualquer ameaça a ela me corrói por dentro, momentaneamente irado e incapaz de compreender suas origens em cada um dos seres, sua natureza cultural, suas experiências pessoais, sua revolta interior. Mas somos falhos : só a liberdade nos redime.

O desaparecimento de gente nossa, parentes, amigos, conhecidos, líderes, é sempre uma marca trágica, tira um pouco do brilho da vida, tangencia a felicidade como uma cicatriz perene. A proporção desse lapso de vida decorre, quase sempre, da maneira que se impôs a perda, que marca delevelmente com marcas de morte. Morremos um pouco, perdemos luz. A nós a liberdade!

Quando o genocídio é aplicado como norma para atingir objetivos de poder, de preservação e injustiças consagradas, em fatos que saltam em nossos dias lembrando a obscuridade imposta, a Operação Condor, por exemplo, vem à luz nomes como do Frei Tito, de Sérgio.

Condor foi o nome da operação que, reunindo as ditaduras da América do Sul, se reuniu no Hotel Carrasco, marcada pelo nome, no Uruguai. Foi a Internacional da direita. Dos governos fortes, que de tão fracos, precisavam matar lideranças populares para se manter no poder. Atentavam contra a liberdade, justificando a defesa do privilégio de uns poucos.

Em nome desses privilégios, contribuintes da miséria coletiva, do sofrimento humano, torturaram e mataram. Torturas como as que levaram Tito ao suicídio, aniquilaram-no e o levaram a decretar a própria morte, em Paris. Preso em novembro de 1969, acusado de integrar a rede de resistência, foi barbaramente torturado. Jamais voltou a ser o que era, sua culpa era denunciar ao mundo o que se passava aqui, em um tempo em que não havia Internet. Frei Beto, também dominicano, mais forte, resistiu à tortura e até hoje propala ideais de liberdade.

Tito levava textos e fotos da barbárie que se instalara no Brasil da ditadura, dos crimes governamentais. Em agosto de 1974, em um hotel de Paris, deu fim à própria vida. Já no ano 2000, o governo reconheceu sua culpa e instituiu ressarcimento à família. Mas sua vida, esta jamais devolverá. Cumprira seu papel cristão, em sentido estrito e legitimo, consigo mesmo e com a sociedade de que fazia parte. Mataram Jango, Lacerda, Juscelino? Há versões nesse sentido.

Mas a história deste país, em que se ocultam as passagens trágicas, as mortes em série na defesa da propriedade concentrada nas mãos de poucos, gravará secular a história de Sérgio. Sérgio “Macaco”, hábil escalador de árvores, capitão da Aeronáutica e fundador do Pára-Sar – esquadrilha de salvamento na floresta. Comandante do grupo, foi em 1968 que foi convidado para uma reunião em que o Chefe de Gabinete do Ministro da Aeronáutica apresentou uma proposta aos 40 membros: era a de um genocídio em massa, para reforçar a ditadura. Vinha da “linha-dura” dos militares.

Deveriam bombardear uma hidrelétrica e o gasômetro do RJ, provocando cerca de cem mil mortes. Atribuiria-se o atentado aos comunistas, decretaria-se o estado-de-sítio, suspenderia-se as garantias legais e se tomaria as medidas profiláticas necessárias, para ele, naquele momento: eliminaria-se fisicamente os comunistas, os que rejeitavam o regime.

Lideranças populares como o arcebispo emérito de Recife e Olinda, o internacional D. Helder Câmara, deveriam ser embarcados em um avião DC-3 e lançados ao mar. Era a maneira de varrer a oposição e trazer a paz dos cemitérios. O Major João Paulo Burnier, dono da proposta, refletia o pensamento dos militares da linha dura do regime militar.

Encaminhavam uma solução já utilizada na Alemanha, quando permitiu a Hitler isolar-se no poder, no final dos anos 30. E na centralização do poder de estado, causar ao mundo a maior hecatombe da história, milhões de mortos, muito mais do que apenas os cem mil originalmente previstos no ato .
Apesar da hierarquia, Sérgio ousou dizer não. Ele, que sempre salvara, insurgiu-se. Levou a denúncia ao Ministro, junto com alguns outros, que também discordaram e firmaram com ele o compromisso. Por isso, foram cassados e presos, demitidos da profissão e da vida, arruinados. Como Sérgio, que só tinha 37 anos. Venderia livros e brinquedos, perseguido para sempre, por sua missão humanitária, como Tito.

Sérgio morreu em 1994, aos 65 anos, em fevereiro - sem conseguir recuperar a patente injustamente cassada. Após sua morte, a Justiça lhe garantiu o direito, mas o então presidente Itamar ordenou o recurso de apelação, em contrário. Afinal, ele quebrara a hierarquia !

Mega-humanitário, o homem que impediu que o nazismo tropical evoluísse para uma tragédia de proporções inimagináveis, é apenas um dos personagens da luta pelo livre pensamento, que não se curva, que não admite tergiversações nem afrontas. Alexandre, Sérgio, Chico, Paulo...

Mas naquela noite na classe da Faculdade de Direito, mais de 30 anos depois, mais um capítulo dessa batalha pela liberdade transcorria. Infindável que é, exige vigilância constante. Fui o único aluno da classe a ser reprovado na matéria ensinada pela professora, a ficar de dependência. Mas o que é isso, diante da grandeza da luta pela liberdade? Dez matérias eu tivesse, dez matérias eu daria...


AH, A LIBERDADE!


FIM

CONTO - 1968 EM FLASH-BACK/UMA AVENTURA NA REBELIÃO DE EROS

Prêmio do Concurso Literário da Faculdade Católica de Direito da UNISANTOS em 2000
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1968
EM FLASH-BACK
O ASSALTO AOS CÉUS
Uma história em tempo real

A AVENTURA NA
REBELIÃO DE EROS

PAULO MATOS

O ASSALTO AOS CÉUS
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Esta é uma história real que conta uma face do agitado ano de 1968, da Revolução Estudantil que varreu o mundo, na ótica de um jovem integrante de 17 anos, por acaso este autor. É uma história de amor e revolução, música e poesia, lembrança de quem ingressou em uma volúpia revolucionária nesse ano e que, ao final do ano seguinte, “sai do ar” em um acidente de carro, durante o entusiasmo juvenil no engajamento ideológico e em suas ações.

A história mesmo começa lá pela página seis... Mas já tinha chegado o Ato Institucional número Cinco da Ditadura Militar, com intensa e cruel repressão aos movimentos populares - e a luta armada a opção escolhida por largas parcelas do Movimento Estudantil, corroborando organizações lideradas por antigos militantes revolucionários.

Era o clímax da luta esse momento em que eu "saio do ar" no acidente automobilístico. O fato ocorria na mesma hora que em São Paulo matavam Marighela, o ex-deputado do Partido Comunista e que optou pela resistência. Era o líder da reação armada, a Ação Libertadora Nacional - à frente mas no propósito do que fora a grande Revolução da Aliança Nacional Libertadora em 1935, liderada pelo Cavaleiro da Esperança Luiz Carlos Prestes. Apenas uma inversão.

Mas Paulinho estava fora do jogo, um trauma de crânio junto com Edmir, um dos líderes do movimento estudantil na cidade, membro da Juventude Comunista do PCB. Após estar em coma de um mês, Paulinho recupera-se e busca reconstituir a trajetória pretérita, a partir do momento do acidente para trás - o que consegue contando-a em “flash-back”, procurando reconstituir sua cabeça que saiu do ar. Afinal, o que foi 1968? Esta digressão diria o que foi por aqui e que marcou a vida de um de seus personagens. Outros esqueceram.

Antes, em 1871, maio, no mesmo mês que 1968 explodiria Paris, os trabalhadores tomavam o poder na cidade, recusando a capitulação vergonhosa do exército francês diante da Alemanha. Mas os militares, que foram derrotados na guerra externa, foram ágeis em massacrar com requintes de crueldade o povo de Paris, em bárbara repressão jamais vista. De 21 a 28 de maio, 20 mil franceses foram chacinados, após esboçarem uma nova sociedade, em novas regras de convivência.

Ao escrever sobre episódio, construindo a teoria da necessidade da organização operária para tomar o poder, Karl Marx disse que a Comuna de Paris, o efêmero da direção da sociedade pelos trabalhadores, foi um frustrado “Assalto ao Céu”. É o que completa o nome "1968 em flash-back"/uma aventura na rebelião de Eros porque este é o deus da juventude, do "animus", da vontade revolucionária, desta que nos adultos costuma se dissolver, o que, feliz ou infelizmente, não ocorreu comigo. Ainda creio que a humanidade jamais desistirá sejam tantas e quantas as derrotas e castigos. É do espírito humano a vitória da vida sobre a morte, de Eros sobre Tanatos. É nesse espírito nossa aventura, que foi real.

O AUTOR

Paulo Matos é Jornalista, historiador pós-graduado e bacharel em Direito, formado pela Universidade Católica de Santos. Escritor, tem 56 anos e é assessor parlamentar do vereador santista Ademir Pestana.

Escritor de centenas de crônicas na imprensa, seu último livro foi lançado em 2004 no tema da luta antimanicomial de tantos heróis: é “Anchieta, 15 anos – a quarta revolução mundial da psiquiatria”, no registro do ato que resultaria na Reforma Psiquiátrica brasileira, foi militante político do movimento estudantil e popular desde a puberdade.

Matos é autor de livros sobre transporte coletivo urbano, (“Transporte coletivo em Santos, história e regeneração”, editado pela Prefeitura de Santos, no governo do Prefeito Oswaldo Justo, em 1987). E sindicalismo portuário (“Caixeiro, conferente, Tally Clerk – uma odisséia em um porto do Atlântico”), uma detalhada história da construção sindical escrito junto com o também jornalista Mauri Alexandrino, editado em 1997 pela Prefeitura de Santos, Prefeito David Capistrano.

Paulo Matos é autor também de ensaios sobre arquitetura (“Jurado, a ilha e o novo”, sobre o arquiteto e construtor do edifício Verde Mar em Santos e de uma dezena de prédios em São Paulo, que o tornaram famoso pelo estilo arquitetônico, João Artacho Jurado), editado em 1996. E ganhou o Prêmio Estadual Faria Lima de História em 1986, promovido pelo Governo do Estado – em um trabalho que conta a trajetória do movimento operário livre em Santos desde seu nascimento após a Abolição, fins do século XIX.

Com o titulo “Santos libertária, imprensa e movimento operário, 1879/1920”, este havia sido seu Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo, sendo depois ampliado e apresentado como sua monografia de pós-graduação em história em 1992 - depois de ganhar o prêmio estadual Faria Lima de história em 1986. Até hoje busca patrocínio para publicação da obra histórica inédita sobre o período em que se originaram os sindicatos no Brasil e em que Santos era um dos três principais pólos nacionais, a "Barcelona Brasileira". É a primeira obra sobre o tema do sindicalismo livre e sua feição anarquista, que sucumbe nos anos 30.

Formado em Direito em 2002, apresentou como Trabalho de Conclusão de Curso a monografia “Catracas, cobradores e direitos sociais”, em que mostra todas as infrações legais praticadas pelos empresários do sistema de transporte coletivo em Santos - de cuja luta participou há 20 anos, como membro da coordenação da Associação dos Usuários - tendo sido vítima da Lei de Segurança Nacional em 1984.

Como militante da organização popular, foi o coordenador da legalidade dos ambulantes de praia e de sua legalização pela primeira vez no país, em uma luta iniciada em 1983 e conquistada em 1986. Membro da coordenação da Associação dos Usuários do Transporte Coletivo, em 1984, foi indiciado na Lei de Segurança Nacional, então o último do país, sendo demitido, anistiado político em 1998.

O QUE FOI 1968?

Depois de mais três décadas, 1968 ainda está em estudo, garantem os especialistas em análises sociológicas, históricas, psicológicas, pois explodiu em diferentes formas no mundo, a favor e contra o marxismo e o stalinismo, contra o racismo, a guerra, a Ditadura Militar brasileira que torturava e proibia, enfim. O espírito de 1968 correu sem a Internet, que não existia. Foi a globalização da revolta, ansiosa por um mundo novo, produzida pelo espírito de Eros, a exarcebação da libido. Foi profético.

No pós-guerra iniciou-se imediatamente outra guerra, esta fria, antes mesmo de contados os mortos de Hiroshima e Nagasaky, no genocídio norte-americano. A possibilidade de o Japão render-se a União Soviética desenhava uma possibilidade em que a história seria outra – e o mundo diferente, com a expansão das áreas sob controle do regime comunista. Para evitar esta possibilidade é que foram detonadas as bombas atômicas, na afirmação da vontade imperial de Tio Sam.

Impostos pela força visível do poderio militar, a Carta de São Francisco que estruturou a Organização das Nações Unidas, afirmando a Declaração dos Direitos do Homem das revoluções francesa e norte-americana do século XVIII, não eram instrumentos de paz, como aparentava. Logo vieram os conflitos da Coréia e do Vietnã, no enfrentamento entre a organização popular comunista e as oligarquias locais apoiadas pelos Estados Unidos. Colocava-se frente a frente este país e a União Soviética, até a pouco juntos contra o nazi-fascismo de Adolf Hitler.

A concorrência entre os modelos econômicos mostrava que a antiga Rússia, em 50 anos, ascendera econômica e militarmente com sua economia planificada, deixando de ser um país feudal para ingressar na supremacia mundial. Mas a concorrência bélica fraudou o que seriam benefícios para as populações maltratadas pelos czares, fortalecendo, diante das ameaças do império norte-americano, o militarismo. O ideal de igualdade interna foi substituído pela competição.

A formação de classes dirigentes havia sido uma decorrência do conflito dos grupos que fizeram a Revolução de 1917, da oposição operária de Alexandra Kollontay e os setores organizados que até então reuniam em um só grupo Stálin, Lênin, Trotsky, Kamenev, Bukharin e o resto. Era a teoria das vanguardas, da qual se arrependeriam após sentir o stalinismo matando a todos, após a morte de Lênin em 1924 – o Pai da Revolução bolchevique.

A Rússia colocou o primeiro homem em volta da terra, Gagarin, que disse que ela era azul. Na competição, porém, estava a própria destruição do sistema igualitário com que sonhou Marx. E o autoritarismo substituiu a democracia popular, oferecendo privações e prisões, repressão. A Checoslováquia quisera humanizar o socialismo com Alexander Dubcek, que fez a ”Primavera de Praga” em 1968. Invadida pela União Soviética, Dubcek terminou a vida como jardineiro, cargo designado para penitenciar-se de ter construído a possibilidade da primavera em seu país.

O livro “Civilização na Encruzilhada”, de Radovan Richta, anunciava o controle do mundo pelos que se apropriassem das novas e fascinantes descobertas científicas, prenunciando o que ocorreriam hoje com o neoliberalismo invadindo sem armas todos os lugares do planeta, na globalização dos de cima que não é a preconizada pela Internacional de 1864 e 1868, que reuniu as lideranças dos trabalhadores e os apólogos da Justiça Social.
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UMA HISTÓRIA REAL

1968 EM FLASH-BACK
UMA AVENTURA NA REBELIÃO DE EROS

A imagem no espelho, já em casa, pela primeira vez após aqueles tempos enevoados, só lembranças do hospital. Perguntas a mim mesmo: o que teria ocorrido, na verdade? Falavam-me de um acidente de automóvel. Cheguei a cogitar sobre um acidente de trabalho, naquele meu grau de envolvimento nas ações contra o regime, às vésperas do confronto armado.

Sentia-me participante da fase final da Revolução de 1968. Aquela que, iniciada há um século no Congresso da Internacional Socialista, transformaria a sociedade, econômica, social e culturalmente.

Isso foi a pouco mais de três décadas, no paradigma de Paris. Eu era um soldado integral desse processo. Não acreditava que tivesse sido um acidente, final inverossímil daquela grande história.

Como 1968 durou tão pouco e significou tanto, para tantos ? Seria a rebeldia secular? Em 1868, depois de reingressar no curso de Direito da São Francisco, em São Paulo, o poeta Castro Alves explodia libertário no Rio de Janeiro para derrubar a escravidão, na causa que concretizou sem ver o fim, até hoje incompleta.

Foi contra essa marca que se rebelou 1968. Castro estava nessa. Os dois, o da poesia e o da ilha do Caribe, mesclando materialismo com romantismo, buscando a liberdade além da mera formalidade – adequação ao futuro, desconstrução, desafio como aquele ao Tio Sam.

Aquela marca na garganta, já cicatrizada, da traqueotomia - um rasgo feito na carne para poder respirar, com as vias aéreas tomadas pelo sangue -, revelava que algo de fato acontecera. Há três meses fora do ar, já era fevereiro de 1970. Lembrava das tentativas de fuga do hospital, contidas. As lembranças remontavam 1968.

A emoção do enfrentamento com a repressão, total e absoluta – real e psicológica, juvenil, de Eros -, soldados nas ruas com cassetetes e bombas, agentes e fardas em toda parte, o medo com sabor de atitude, o enfrentamento temido.

A angústia com a consciência da desumanidade vigente, a miséria, a opressão. Éramos realistas, agíamos, exigíamos o impossível em 1968. Éramos também um pouco Byron, melancólicos.

Foi aquela minha saída da Ponderosa, o nosso point, como se diz hoje, de carro, com o Edmir. Era o final do ano de 1969, novembro, quatro. Panfletos, esquemas, planos, palavras de ordem.

Quase meia-noite, chovia. Havia ido buscar Nadir na escola, pela primeira vez. A conhecera e me apaixonara um dia antes, quando eu e o Lélio Kolhy levamos uma turma de jovens para visitar o Pavilhão Soviético na Bienal paulistana. Tarefas para levar consciência aos alienados, como chamávamos os jovens desinteressados da política.

Depois, levamos a turma ao Teatro São Pedro, para assistir a peça de Ibsen, O inimigo do povo, com o Serafim Gonzalez. E começamos um namoro, prejudicado (ou ilustrado ?) por aqueles trágicos fatos que ocorreriam. Que ela acompanhou junto, ao lado do leito. Os amores eram platônicos, ideais, pouco carnais. Abaixo o MEC-USAID ! Gabeira desce do Jornal do Brasil em que escrevia e vai fazer revolução e história, apaixonado pela Marcha dos cem mil. Coisa daqueles tempos, há tanto tempo, congelada em fotogramas rígidos.

No cinema, Malle, Truffaut, Polansky, Resnais e Forman retiram seus filmes do Festival de Cannes, em apoio ao movimento estudantil que toma Paris. Jean Luc Godard, Sartre, Gravas e Russel, Cohn Bendit e Bertolucci., entre outros, ajudaram a luta armada no Brasil, em sua fase de organização, doando fundos. Cantávamos a Marselheise após a vitória no grêmio do Colégio Canadá. Era 1968.

Na Europa, em 1868 repercutia Zola e seu livro Thèrése Raquin de um ano antes. Explode em Portugal o antimonarquismo e o anticlericalismo opressor, no auge da Questão Coimbrã.

Era o conflito das novas idéias resultantes do positivismo de Comte, do socialismo científico de Marx, do evolucionismo de Darwin com os velhos românticos de Lisboa – onda evolutiva carregada pelo novo trem ligando os lusos a Paris, a luta para superar o atraso político, moral e científico, iconoclasta.

Emanações de Vítor Hugo: era o momento da revolta, na luta da alegria e do presente para superar o egoísmo e o passado - com nostalgia do Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores de 1868. Como dizia o refrão de seu hino,
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Bem unidos, façamos / desta luta a final / Uma terra sem amos/ a Internacional
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1968 reprisava este tempo, foi uma época de transformações, erupções radicais, que esbarravam no bem-estar keinesiano da Europa, como notou Hobsbaw. Mas aqui não era assim, na colônia imperava a pobreza e a miséria, ao som dos Beatles. Ensaiam os primeiros passos os grupos guerrilheiros, ALN, VPR - na proposta da derrubada, pelas armas, de um governo que já justificava a reação, matava nas ruas. E que tinha interrompido o fluxo de mobilização popular e evolução social, pelo Golpe Militar de 1964.

Ditaduras totalitárias e paraísos libertários eram exaltados: quem nascera no fim da Segunda Grande Guerra estava no auge da juventude. Senhores, patrões chefes supremos, nada esperamos de nenhum! Sejamos nós que conquistemos, a pátria mãe do bem comum... A Internacional ecoava.

Com 15 anos, recém saído da infância, a consciência revolucionária no calor da puberdade me empurrou, diretamente, da meninice para a militância apaixonada no movimento estudantil. Foi lá minha puberdade. Era Eros, 1968. Marcuse explicava essa unidade do impulso juvenil, que quis mudar o mundo.

Tempos em que trago a lembrança guardada em mim, na memória do vírus no sangue que, cedo ou tarde, me levará. O adquiri nas transfusões de sangue no hospital, após este acidente que encerra e principia uma etapa, nestes tempos difíceis. Mas que me fizeram feliz neste, como disse Marx, assalto ao céu. Sobrevivi e - creio – criei, ajudei a fazer o 1968 de tanta virulência. Ora, é esta mesmo uma farsa literária, um conto travestido de reportagem! Apenas narrativa.

Naquela noite do dia seguinte ao que conhecera Nadir, segui no rumo inevitável a Ponderosa, como todas as noites. Ingressando nas madrugadas, quando a noite começava - nas latentes discussões teóricas e práticas no restaurante do espanhol, fugido de Franco, Demétrio. As ações partiam dali : era o foco da rebelião, para nós universal, sob vigilância policial – cenário de aventura e amor comum.

Sandálias, barbas e cabelos compridos de calças Lee misturavam-se com clássicos no vestir, hectolitros de chope, bossa nova e jazz – rock e yankees go home – fora os Beatles, admitidos. A fossa sempre presente, cada papo era uma reunião, era ação ou angústia, seu novo nome.

O combate à ditadura ainda não conhecia o pior, que viria depois. No fim da noite, fechado o Ponderosa e expulsos os noctívagos, era a vez do Sujeirinha, aberto a noite toda – para suportar nossas glórias e lamúrias, declarações. Um filme na fita, o papo decadente de fim de noite.
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Participem da faxina. Aqui, não há empregadas. É maio, é Paris.
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Na Ponderosa que se reuniam os estudantes organizados na contestação, secundaristas e universitários. Também os políticos, parlamentares que logo iriam para o saco das cassações arbitrárias – os deputados da oposição, Corte Real, Gastone Righi – que namorou a luta armada e a deixou em 1968, junto com Aloysio Azevedo -, Francisco Prado, Esmeraldo Tarquínio, Mário Covas.

Cidade libertária, Santos foi a que teve maior número de cassações. E a única do país a sofrer as penas de um navio-prisão, o Raul Soares, em 64, histórias dramáticas. No início do século XX, foi um dos três principais centros anarco-sindicalistas do país, a Barcelona Brasileira. Nos anos 60, era a Cidade Vermelha, Moscou Brasileira. Pagou pela fama.

Lideranças clandestinas. Policiais, DOPS, a polícia política, atores, diretores, escritores, jornalistas, cantores, cineastas, gente da resistência - um mundo. Diziam que na Ponderosa residia a esquerda festiva, mas de lá que saíram alguns heróis para a luta armada em busca do sonho, no assalto aos céus.

Não eram exatamente os que carregavam o livrinho vermelho de Mao-Tsé-Tung. Ou o Guerra de Guerrilhas, do Che. Ou Revolução na Revolução, de Castro / Régis Debray, o jornalista francês que se apaixonou pela Revolução. Outros saíram para a droga. Eros ou Thanatos. As paixões não envelheciam.

Era na esquina da Avenida Ana Costa com a rua Tolentino Filgueiras, no Gonzaga, o bairro turístico de Santos, que ficava a Ponderosa Ranch. A placa interna de madeira tosca, como que fatiada de uma árvore, introduzia ao restaurante. Uma denominação retirada de uma série televisiva da época - a da família Catright. Ponderosa era o nome de sua fazenda no faroeste americano.

Ponto da esquerda juvenil e adulta da cidade, das correntes intelectuais, dos artistas de todos os matizes, da música ao teatro e a literatura. João Russo dirigia A questão da espera, emoção e revolução, poemas e canções, Moacyr Felix, tempos inexoravelmente múltiplos de luz.

Na pasta, naquela noite, panfletos em elaboração e o poema de Vinícius, que levei para ler com Nadir, figura doce, de óculos redondos que conhecera no festival musical, irmã de Guilherme, meu colega de trabalho. Fui buscá-la na escola, pela primeira vez. E retornei à nascente de tudo, o Ponderosa.

Era 4 de novembro de 1969, o regime já fechara e os tempos alternavam fossa com euforias, presentes nas nossas ações revolucionárias. E nas notícias que chegavam, rompendo o bloqueio das vitórias censuradas no campo. Cantava aqueles tempos o poeta:

“São demais os perigos desta vida para quem tem paixão. Principalmente se uma lua surge de repente e se deixa no céu como esquecida. E se ao luar, que atua desvairado, vem se juntar uma música qualquer, então é preciso ter cuidado, porque deve andar perto uma mulher...Deve andar perto uma mulher que feita de música, luar e sentimento. Uma mulher que é como a própria lua: tão linda que só espalha sofrimento, tão cheia de pudor que vive nua...”

Ao chegar, logo saí com o Edmir, o presidente do Centro dos Estudantes, da Juventude Comunista do PCB então clandestino, cujo grupo renascera a entidade meses antes. Ao volante, inexperiente, no fusca azul emprestado. Tarefas a executar, chuva, velocidade. Um trólebus na contramão do fluxo em direção a Ponta da Praia, na avenida Epitácio Pessoa - pista única. A brecada, o rodopio, o choque com o poste, contaram-me depois inúmeras vezes.

O trauma crânio-encefálico, coma, para mim. Ele, comprido, de óculos, se quebraria todo. Na mesma hora e momento, o ex-deputado comunista Carlos Marighela, baiano e líder da resistência armada à ditadura na Aliança Libertadora Nacional, era fuzilado em São Paulo. Fora entregue pelos dominicanos, sob tortura.

Mais de 500 presos, devastação. Era o féretro do sonho de tantos, entendido por tão poucos, de modificar a sociedade brasileira. Vinte e cinco anos depois promovi a homenagem ao herói Marighela, no Sindicato dos Petroleiros, aos 24 anos de sua morte - integrando os tempos. Há, essa mania de fazer história!

1968

D. Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife e líder da Igreja Católica progressista, promovia em todo o país, neste ano, o movimento Ação, Justiça e Paz, - em Santos, no ato do colégio São José, em que só se ouvira sua voz gravada em som ruim. Mas era ele.

Há 20 anos, em 1948, metade da Câmara santista era cassada, impedida de assumir, junto com todos os parlamentares do PCB eleitos no país, embora disfarçados no PST - no clima da guerra fria que se iniciava com a cassação do Partido Comunista Brasileiro e o rompimento com a União Soviética.

Da sala Torres Homem, da Santa Casa, o maior hospital da cidade, poucos saiam vivos. Foi onde fiquei, após o acidente. Entravam os traumatizados cerebrais, quatro de cada vez, três iam para o necrotério, várias séries, menos eu.

Recebi extrema-unção de um padre apressado. Brincam comigo, dizendo que fui recusado no céu e no inferno, retornando à vida milagrosamente. Ainda iria escrever muito, perturbar a vida de muita gente poderosa, estudar Direito e sentir emoções que já não existem, no universo de um Quixote pairando na imaginação que sentia real.

Foi a boa-vontade dos que me recolheram no local do acidente que me garantiram vivo. E também do Dr. Stamato, o neurologista, que veio na porta do hospital e subiu os degraus comigo no colo. Despertei após mais de dois meses, para alívio de mamãe, perene comigo. E da companheirada que atravessou dias e noites ao meu lado, que ocupava o hospital nas madrugadas, que organizou espetáculos para pagar a conta. Agentes policiais, visitas constantes. Tragédia no fronte.

A caminhada da recuperação demoraria: havia sido atingido o centro motor do cérebro, do lado esquerdo. Quase aniquilado o lado direito - em que perna e braço moviam-se com dificuldade. Pensamentos confusos, tentava escrever, sem poder, as primeiras letras com a mão esquerda, destro que sou, quase conseguindo. E tentando entender Marcuse, Mc Luhan. Queria recomeçar, recompor, rearticular. Mas em um instante, tudo havia mudado. Onde estavam a luta e a poesia ?

Eu falava mal como o Topo Giggio, diziam, um ratinho em moda nos desenhos da época. Depois viria o Sig, o ratinho do Millor no Pasquim, denunciando o burguês Topo. Angustiado, queria voltar. Para o que? Tudo havia desaparecido. E eu buscava a retomada, ainda hoje. Tentei montar com companheiros remanescentes, depois de sair do hospital, uma rádio clandestina para combater a ditadura. O projeto não se concretizou. Era outra a época, mudada pela força.

O que ocorrera ? Onde estavam os companheiros ? E a revolução, as tarefas ? Quem tinha caído, quem morrera ? Ninguém me respondia. As poucas visitas, cuidadosas, pareciam seguir conselhos médicos de não me preocupar. Caladas, cuidados, silêncio.

Não havia coisa pior, se soubessem! Em um lapso de tempo, tudo havia mudado com as derrotas sucessivas dos grupos organizados, da derrota das forças democráticas, na devastação operada na esquerda, durante meu sono. Depois de 2 ou 3 meses do acidente, eu estava de volta, a procura do passado, em vão.

Era necessário recompor relatos, raciocínios, elaborações, a ordem dos fatos. Era preciso não deixar morrer a lucidez, recobrar a consciência, a revolta, o que fiz. Só agora, em 2000, escrevo aqueles tempos de 1968, de novas exigências, em que tudo começou.

Em 25 de maio de 1997 desaparecia Maurice Armand Marius Legeard, o criador e mantenedor do Clube de Cinema de Santos, um dos primeiros do Brasil, surgido no intelectualismo progressista do pós-guerra, em 1948. Chapinha e companheiro deste 68 de flores e chumbo, nosso formador intelectual, ele é parte desta memória. Como Patrícia Galvão, do teatro e da militância dos anos 40, seu modelo e paixão, era o militante do ideal.
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MAURICE
personagem de época, no poema de Narciso

Tigre feroz das madrugadas, Maurice não briga mais. Podeis passar levianos, com vossos passos melífluos, Maurice não briga mais. A cidade está tranqüila, na Conde D’Eu e no Outeiro, nas catacumbas do Itararé, nos antros podres do Gonzaga. Maurice não briga mais. Podeis acordar mais tarde, habitantes da grande noite, damas das vielas e das esquinas, frágeis infantes das calçadas, Maurice não briga mais.

Este é o recado que traz o vento frio da madrugada, da madrugada rubra do cais - Maurice não briga mais. Catraieiros do mercado, que levais vossas catraias, ao outro lado do estuário, sem temor da cerração, Maurice não briga mais. Proprietários dos botecos, deixais vossas portas abertas, servi vosso conhaque nas mesas, liberai o papo franco pelas manobras do álcool, Maurice não briga mais. Kurosawa, Bergmann, Fellini, que tristeza, que tristeza, Maurice não briga mais...

(POETA NARCISO DE ANDRADE, DEPOIS DA IDA DE MAURICE, UM JEITO DE 1968)
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ESQUERDA, VOLVER!

A ida de minha família para o Gonzaga, em seguida, no pequeno apartamento da Rua Luiz Suplicí, era assim algo novo, inédito. Era como chegar ao mundo. Eu vinha do Campo Grande, um bairro quase da periferia. E o novo bairro era o centro da agitação santista. Foi uma passagem na frente da Ponderosa, na Avenida Ana Costa das palmeiras imperiais, a que cheguei por acaso.

Estudava na extensão do Colégio Canadá, à noite, no prédio do Grupo Escolar Cesário Bastos, na Vila Mathias. Fui ao iluminado Gonzaga, encontrei Maurice e uns desvairados e... fiquei! Nenhum delírio poderia criar um sonho semelhante, diria o Maupassant que conheci menino, nos livros.

Lá me enturmaria com jovens adeptos de uma tal de justiça social, outros maduros dirigentes, que gostavam de cinema, livros, filosofia, artes plásticas, essas coisas abstratas. Depois da primeira prisão no Centro dos Estudantes, já em 1968, um animalesco professor de história, que diziam ser o homem do Serviço Nacional de Informações no pedaço, exigiria da diretora Jandira minha expulsão da escola.

Seu nome é conhecido: Coronel Erasmo, que depois seria secretário estadual de Segurança e faria barbaridades na repressão ao Congresso da UNE. Uma unanimidade de ódio, indivíduo da pior espécie. Abril, 17: 68 municípios se tornam área de segurança nacional. Santos, dos navios iluminados do romance do santista Prata, Ranulpho, se incluía.

Neste revolucionário 1968, Santos ainda elegeria Esmeraldo Tarquínio prefeito, em novembro. Socialista, negro, advogado, poliglota, intelectual, jornalista e cidadão do mundo, poeta, cantor de orquestra e bom papo.

Fizemos sua campanha em cima da oficina do espanhol atípico Luiz Garcia Jorge, que estava lá e que veio equivocado de Barcelona – como o Dick de “Casablanca”, atraído pela água mineral de uma cidade no deserto. A cidade perderia Tarquínio antes que ele pudesse assumir, em sua volta 14 anos depois, quando se previam possíveis as eleições.

Na época, eleito no final de 1968 foi impedido de tomar posse, cassado pela Ditadura Militar em 1969, junto com a autonomia – figura genial. Foi meu amigo e meu padrinho de casamento, o homem mais puro que conheci, disse o vereador Oliva. Conhecera Martin Luther King, o líder negro da Marcha dos Pobres sobre Washington, 4 milhões de seres. Mas eu inicio a narrativa em novembro, 69 – e vou em flash-back para 1968, para contar e entender.
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1968 : barricadas fecham as ruas, mas abrem o caminho. É maio, é Paris.
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Janis Joplin e Jimi Hendrix, ícones de uma geração, explodiam e desapareciam, eram os ideólogos do sexo, drogas e rock and roll, que restaram. A esquerda aqui era só alcolista. Ovos na ópera de Milão, no Teatro Alla Scalla. Franco Basaglia libertava a loucura, os internos destruíam simbolicamente o manicômio no movimento pela sua supressão – que ainda hoje luta para concretizar. Escutávamos os discursos de Mao na rádio Pequim, antenas na janela, com o líder chinês acusando o revisionismo soviético.

Estudantes aderem à luta armada, parcelas da Igreja Católica. Fidel Castro dá a receita e o apoio, Marighela é o líder. Hair chega no Coliseu santista, a Bahia nos dá régua e compasso, com Gil, Bethania, Gal, Caetano. E a Miss Universo, com Marta. A vitória Vietcong no TET de janeiro é música para a esquerda brasileira, no ano que terminaria com a violência do Ato Institucional número 5 – prisões, cassações, repressão. A ditadura queria cassar o deputado Márcio Moreira Alves por seu discurso, que repetia a rebelião grega de Lisistrata. A Câmara não deixou e a coisa fechou mesmo.

O circo russo chegou à cidade. Não alimente os animais. Eram os jovens tchecos na luta contra os invasores, que aqui tinha defensores da preservação da ortodoxia comunista. Uma aberração autoritária, que dividiu ainda mais a esquerda. Escreviam nas paredes de Varsóvia:
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“ Lênin, acorda ! eles ficaram loucos ! “
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Coração a mil: minha primeira prisão no Centro dos Estudantes, no final de 1968, quando eu mal completara 16 anos, tinha sido um reforço ideológico. Acusaram, a mim e ao Thomézinho, de usar os travesseiros - os que colocamos sobre os cartazes da passeata impedida pela polícia de um mês antes - para fazer bolas de fogo. E atirar no Governador-interventor Abreu Sodré, na visita que este fazia à Sociedade Italiana, em frente. Está nos autos. O Dr. Zerbini inaugura o ciclo de transplantes do coração, neste ano em que o órgão estava na moda.

Em 1968, éramos brigadistas internacionais, como Eric Blair - ou George Orwel, o codinome do autor da Revolução dos Bichos, odiada pelos ortodoxos do PCB. Fazíamos dupla eu e o Thomé, o Nilton – o precoce literato Thomézinho -, que também já se foi, dois meninos, preso comigo. O Thomezão, Zé Carlos, nossa referência, era o irmão maior - professor de cursinho em SP, morava ao lado da Filo - USP na Maria Antonia. Referências. Íamos para lá, às vezes. Lucíola, foi naquele ap! A capital paulistana era uma aventura, para nós.

No auge, o festival musical do Teles no Clube XV, com renda para o Congresso da União Nacional dos Estudantes. Luz na terra, luz na fábrica, a vitória do protesto de Sá e Godoy, Luiz Carlos Gomes Godoy, nosso líder da União Progressista da Faculdade Católica de Direito: "A miséria desarmada / no meio das trevas espera / a mesma espera na terra / a mesma espera na fábrica..." Discursos panfletários na premiação, os medrosos do júri se retiram, a jornalista Vera Rodrigues ficou, teve coragem. É véspera do AI- 5, anunciado e prenunciado com temor. Como viver sem este som, esta vibração? É essa a pergunta que sobrou.
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O POEMA DE H. LEAL
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Era como gostava de ser chamado meu amigo Hugo Leal, que conheci na eleição do GEVC, o grêmio do Canadá, em 68. Era o vice de Daniel Gomes Rodrigues, na época do temível diretor Edésio Del Santoro, figura. Dentre seus milhares de poemas que produzia profusamente, ficou este na lembrança. Consta que elaborado na barraca de praia do GEVC no Boqueirão (que ficou dia e noite por três meses no local, com grande movimento alcoólico noturno), conjuntamente com os amigos Roberto Barsotti, a indefectível dupla Tabajara e Marinho, Daniel e outros menos chegados.

“Certo dia, o poeta saiu de casa. Nem mesmo o espírito santo e as sete divindades do oriente, numa união caótica de forças, poderia designar qual seu rumo. Na ocasião, o poeta era único, imutável, insofismável. Recebera o certificado de sui generis, juntamente com um par de galhadas metafísicas! E a máquina de fazer poemas, aniquilada pelo peso dos adornos, transmutou-se em alambique.

Ffez de seu bucho sindicato das branquinhas, que das mais marcas e quantidades, circulavam por suas veias. Mais um bêbado surgia... Certa feita, um amigo do poeta, atacado de uma dessas fossas de fazer inveja a Franz Kafka, entrou num desses ...botecos avançados. E o poeta lá estava.

E gritava, alheio a tudo e a todos, sua cantilena plena de contundente imbecilidade: “eu fracassei, eu fracassei”... E em sua volta, o couro mudo dos paus d’água babava sua concordância num cataclisma moral inenarrável. Súbito, o sacerdote da cachaça calou-se: fez um gesto com as mãos, como para afastar de si o epitáfio de cornudo. E murmurou “eu fracassei, eu fracassei...” e mais nada. Estava morto.
O amigo do poeta, então, ajoelhou-se e rezou. Rezou porque vira o óbvio, o ululante, o inenarrável. O poeta não fracassara, tornara-se um gênio na mais triste das poesias.

E a côrte dos bebuns, em uma última homenagem, sorveu o seu penúltimo gole, assistida de longe pelo sol de um novo dia...
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SOBRE H. LEAL
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(O poeta Hugo Luiz Moura Leal, meu alter-ego, como dizíamos, era o Rei do Balcão e as garrafas sua guarda pretoriana. Foi o vice-presidente do GEVEC, o Grêmio do Canadá, que elegemos em 1968 – e nessa condição nos conhecemos e nos tornamos irmãos – um dos primeiros que conheci neste ingresso à esquerda.

Intelectual formado no antigo curso clássico, entrou em Jornalismo em 1971, na onda de sucesso de Marshal Mc Luhan. E foi para SP. Falei com ele algumas vezes. Quando tentei contatá-lo em 1996, para falar-lhe de meu livro, da concretização dos ensinamentos que iniciei com ele, tive notícias de sua ida para a vida eterna.

Não poderia ser de outro modo, alcoolista genial profeta do etilismo, de saúde precária, em um corpo em que só funcionava a cabeça, eterno H. Leal, como gostava de ser chamado. Iluminava nossas rodas com suas palavras cadenciadas, sua voz grave quando impostava, ator que fora, declamador de bom tom, sempre com um poema na cabeça. Pequeno e franzino de óculos redondos de aros pretos, magro, roupas clássicas, sempre, desalinhadas.

Dinheiro amassado e espalhado pelos bolsos, buscados com as mãos inquietas de artista, balouçantes. Fumava sem parar, sempre encantado com uma frase de Nelson Rodrigues. Ensinou-me este, Vinícius de Morais, Augusto dos Anjos e outros poetas, que trazia na cabeça. Sempre com alguma paixão impossível e uma frustração recente, artista da fossa, por lindas mulheres que encantava com suas palavras, a quem dedicava poemas.

Hugo era a própria figura ressurgida da segunda geração romântica, que declamava em cemitérios o amor e a morte, que morria cedo e tuberculosa. Certa feita, em sua casa na rua Guaíbe, na Ponta da Praia, em uma festa numerosa, ao depararmo-nos com o término da cachaça, não teve dúvida: o álcool estava ali, 96 graus, com Fanta – como de hábito, a versão 68 do hi-fi dos anos 60.

O poeta ingressou no concretismo poético ao começar a utilizar a cannabis-sativa, mas nada como seus poemas de amor e ironia que recitávamos nos momentos mágicos de libações alcoólicas bebedeira. Mentiroso célebre, tornara-se. Em 72, apareceu todo rasgado e machucado, dizendo que se envolvera em uma missão para libertar Carlos Lamarca, o líder do VAR-Palmares. Na verdade, não se engajara como outros companheiros na luta armada, era galhofa mesmo.

Deu muito do tom niilista de nossa derrota nessa caminhada revolucionária. Poucos mundos conheci como o e H.Leal, a quem a realidade era enfadonha e pouco interessava, em uma época de heróis comprometidos até o pescoço com as mudanças sociais. Escrevia poemas aos montes, pilhas de sulfite em sua máquina manual. Escreveremos juntos outra vez em outro patamar, breve).

Post Scriptum: Hugo Leal não morreu, vive em SP. A notícia de sua morte era falsa. Mas permanece o registro.
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REBELIÃO DE EROS

Sabor de rebelião, consciência às portas da revolução. Pinga com Fanta, foi tanta! O teatro militante, discursos, denúncia constante. Era preciso recordar, como foi? Em 5 de julho de 1968, a Santos libertária renasce, realizando a sua passeata, a primeira desde 1964. À frente da meninada os políticos à esquerda (Prado, Gastone,João Sampaio, jornalista que seria editor do Cidade de Santos), intelectuais como Maurice, líderes como Sérgio Sérvulo, enfim.

Políticos, estudantes, intelectuais em massa, a população adere, sucesso absoluto - ainda sem repressão. Dois mil estudantes na Praça Mauá. Não é preciso ser triste para ser militante, disse Foucault. Mas a fossa predominava. Seria outra geração romântica? Não teríamos tempo.
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Chega de tomar o elevador: tome o poder! (Paris)
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Felinni, Antonioni, Glauber, o cinema fazia nossa cabeça, consolidando ideais humanistas. Truffaut, Godard, Shindo, Resnais, Kurosawa, Lumet, Polanski... Tempos de filósofos como Sartre e Andy Warhol, que expunha a banalidade da cultura de massas, no Brasil de Leila Diniz e Vladimir Palmeira, o vigoroso líder estudantil nordestino.

Em 16 de julho violenta repressão aos metalúrgicos de Osasco, em abril a ditadura tenta invadir a Faculdade de Direito da USP e os estudantes reagem com os coquetéis Molotov, garrafas com gasolina com chumaços de pano no gargalo, incendiados e lançadas.
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Sejam realistas, exijam o impossível (Breton)
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Em SP, a grande onda era jogar saquinhos de bolinhas de gude nas avenidas por onde vinham os soldados da cavalaria repressora. Era uma festa, com os cavalos caindo. Foi o tempo do VI Congresso da UPES - União Paulista dos Estudantes Secundaristas, no CRUSP – o Conjunto Residencial da USP. É decretada a ilegalidade da Frente Ampla, em julho, que reunia os ex-presidentes eleitos Jango e Juscelino, o comunista Prestes e até o líder do golpe militar, Carlos Lacerda. Mas nosso herói era Che, que pela revolução dera a vida.

Lá no CRUSP, o residencial da USP, existia um verdadeiro quartel-general da revolução, sem armas mas com muita informação, imprensa rodando direto as fórmulas da transformação. Pichações até no teto, mas sem as bobagens que se escrevem nas paredes de hoje. Comida boa e barata tinha no refeitório do CRUSP, um outro mundo para nós, de Santos. Depois do Ato 5, invadiriam o local com tanques, brutalizando o sonho de tantos. Mariga, esperança da concretização do sonho do assalto aos céus.

Fomos ao CRUSP eleger Marcos Palácios presidente da UPES, a União Paulista dos Estudantes Secundaristas. Era 1968 e havia no ar o melhor da sociedade e da fraternidade, da confiança e da amizade, diria depois Olgária Matos. No ano seguinte, nas repúblicas paulistanas de estudantes, antes solidárias, nas que se transformaram em aparelhos convivia-se com a desconfiança mútua e a tensão dos tempos de guerra. Mudara a química do ano mágico. A reação era violenta.
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Revolução Cultural contra uma sociedade de robôs
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Os jovens de 1968 tinham a proposta de aniquilar com o ancien regime, na tradição de 1789 e 1848, evoluindo a ordem que se baseia na subordinação do trabalho ao capital e à propriedade privada. Se irradiou a partir da França, terra do iluminismo e da utopia positivista, consolidadora do sistema de exploração do homem pelo homem. E chegou aqui pelo mar e por terra. Leila Diniz é liberdade, encanto de 1968. Nosso universo é encanto e desencanto.

Direitos negados, tempos de chumbo. Mas o tropicalismo de Gilberto Gil e Caetano Veloso revira a música brasileira, como na política, radicalizando. Mais tarde este cantaria enquanto os homens exercem seus podres poderes... E Vandré colocaria o poder militar na ordem do dia, cantando há soldados armados, amados ou não, quase todos perdidos de armas na mão, os quartéis lhes ensinam antigas lições, de morrer pela pátria ou viver sem razão.

E o que foi essa rebelião que tomou o mundo, sem uma Internet que a globalizasse - e que mesmo assim, em diferentes regimes e reivindicações similares? A ordem do dia era a felicidade e este desejo convulsionou o planeta em greves e manifestações estudantis e operárias, ocupações e enfrentamentos que, na França, oferecia flores aos soldados. É impossível racionalizar 1968.
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A inteligência caminha mais do que o coração, mas não vai tão longe.
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A agitação operário – estudantil na França, na sonhada aliança dos ideólogos, sacudiu o governo De Gaulle e sua plataforma de exigências. A sociedade vertical, estruturada há milhares de anos, era questionada por ansiosos jovens reformadores, exaustos de um sistema de vida voltado para o lucro e a acumulação, desejosa do prazer revolucionário. A arte e a poesia se incorporavam nesta rebelião, que rompeu com o convencionalismo das bandeiras ideológicas.

Em 1968 assassinaram Robert Kennedy, o Bob, irmão de John, também morto em 196l. Milhares de pacifistas sacodem os Estados Unidos, em protesto contra a guerra do Vietnã. Em 30 de abril estreava, em São Paulo, o espetáculo Hair - os hippies cabeludos do faça amor e não a guerra - make love not war, a era de Aquário.

O Santos Futebol Clube era bi-campeão paulista e a Revolução Cultural do líder chinês Mao-Tsé-Tung, que cultuávamos em nosso GELA - Grupo de Estudos (ou de Explosão) Latino Americano -, chegava ao auge. A euforia na ação, pichação, panfletagem, manifestação. É 1968.

Na França, se elegeu como líderes nominais da rebelião Marx, Mao, Lênin e Marcuse, que tinha 3 livros na lista dos mais vendidos de Veja, em outubro. Mas a revolta tinha pouco a ver com eles - não se explicava pela luta de classes. Na Checoslováquia era contra o stalinismo totalitário, nos EU contra a guerra do Vietnã, aqui contra a ditadura e pelo socialismo, no planeta todo contra o autoritarismo, de maneira geral. Mas 1968 terminaria com a vitória de De Gaulle na França e do ultraconservador republicano Nixon, antigo caçador de comunistas com Mc Carthy.

Dezembro, 13: o Brasil marcha a passos de ganso para a escuridão fascista. Desaparecem do cenário parlamentar, cassados, 110 deputados federais, 160 estaduais, 170 vereadores, 22 prefeitos, dez mil pessoas presas para averiguação. É a barbárie. Alexandre Vanuchi Leme, 22 anos, estudante de geologia da USP, cristão, é barbaramente trucidado pela Operação Bandeirantes, a OBAN de Fleury - grupo paramilitar da repressão, 5 anos depois. Foi até quando se estendeu o clima de rebelião de 1968, em que surgiu este cristão da teologia da Libertação que surgiu na França. E amante de Teilhard de Chardin.

1969: foi barra...

Em agosto, eu estava sentado na ante-sala do então Interventor na Prefeitura, junto com o Teles, em busca de apoio para o festival musical. E eis que chega a notícia: Costa caiu! Tivera um derrame cerebral e fora impedido de exercer a presidência. O vice era o civil Pedro Aleixo, mas este votara contra a edição do Ato 5, 8 meses antes – e os três ministros militares, apelidados de “Os 3 patetas”, deram o golpe.

General Aurélio de Lira Tavares (da Guerra), Almirante Augusto Hamann Rademaker Grunewald (Marinha) e o Brigadeiro Márcio de Souza Melo (Aeronáutica) baixaram o Ato Institucional número 12 – colocando-os no poder ao invés de Pedro Aleixo, que seria o vigésimo Presidente do Brasil. No Artigo 1º. Fecharam o Congresso, revogaram a Constituição de 1967 e outorgariam a Constituição de 1969, “votada” por um Congresso decepado pelas cassações. E tome fechamento político e repressão.

Rivaldo Leão, torturado mais de dois meses no DOI-CODI, o português Gregório, Gilberto César, Edvaldo, Virgílio de Cubatão, Edmir, Armindo Sérgio, Aymar Biú. São alguns dos personagens de 1968 que se engajaram em tarefas mais pesadas, para tentar mudar a sociedade, nos anos seguintes - já que a ditadura não admitia a manifestação e matava nas ruas. Se reuniram com o comandante Marighela e reuniram armas, montaram esquemas e fizeram contatos com a ALN em São Paulo.

Presos e torturados, Gilberto atirou-se de uma sala do DOI-CODI na rua Tutóia, em SP, para escapar do suplício. Quebrou a cabeça, foi demitido da Docas. Reintegrado, voltou para ser um decidido líder sindical dos marítimos, envolvido em cruciais batalhas.

Gilberto morreria afogado depois, pescando com o filho, em 1999, após colocar a vida à serviço da sociedade. Fui eu quem o trouxe para a militância política em 1968, quando trabalhei com ele na “Maruwan”, uma firma de exportação na Praça Barão do Rio Branco 14, 8º andar. Levei os amigos em sua terra, Itapema, para ensinar teatro. Ele adquiriu consciência e ingressou na luta de olhos fechados, herói.

Armindo ficou cego de um olho depois do tiroteio que envolveu a ele e ao Aymar, ligado ao AC – Agrupamento Comunista, de Marighela, depois Aliança Libertadora Nacional. Foi na saída da balsa do Guarujá, junto com dois agentes policiais que fizeram Armindo, trabalhador da Refinaria e historiador, levá-los à casa do ex-aluno da UFRJ, que fizera licenciatura em química. Aconteceu em 1974.

Levados para o DOI-CODI, torturados, Armindo ficou sem o olho e Aymar logo ficaria sem o juízo, passando anos a pichar os muros da região e até das estradas em redor “a GM (General Motors) provocou o câncer de Tancredo Neves”, aludindo à morte do presidente eleito pelo Colégio Eleitoral que pôs fim à era militar, em 1985. Fora preso em 1967 (junto com Vasco Nunes) e voltou a sê-lo em 1974, período em que foi para fazer a Universidade Federal carioca.

Aymar morreu no Hotel Caiçara, na esquina da Avenida Ana Costa com a Francisco Glicério, onde morava, em 96. Português, torturado, voltou à terrinha, amargurado, em 1975. Rivaldo, psicólogo, mestre em filosofia, ainda conta as histórias daquele tempo da ALN. Com amarga, mas prodigiosa memória, injustamente acusado por ter cedido aos torturadores. Coisa daqueles tempos.
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Dormindo se trabalha melhor. Formem comitês de sonhos. (Sorbonne)
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1968 foi um problema para os analistas e historiadores factuais, porque não tinha um programa político de tomada do poder nem de reivindicações, sua pauta era localizada. Eram manifestações por causas multiplicadas e heterogêneas, incomunicáveis.

Nesse encontro planetário, se propagava um vigoroso movimento libertário contra o colonialismo, o racismo, a guerra, as ditaduras, os códigos opressores e superados, as imposições arbitrárias. Foi um basta à tecnocracia e às formas sociais que iriam se agravar décadas após, trazendo sofrimento, que 1968 tentou evitar. Foi a consagração da utopia, More atrás. Nesse turbilhão, amor aos poucos, coração a mil.
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O direito de viver não se mendiga, se toma ! (Nanterre)
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Já se passaram mais de trinta anos. Parece que foi ontem, na frase-padrão, em que a juventude queria varrer do planeta os donos do poder geradores da infelicidade coletiva. O mundo repercutia na Ponderosa, nossa arena universal. A opressão se torna mais opressiva quando se tem consciência dela, disse Marx. Mas também que quando o extraordinário se torna cotidiano, é a revolução - que no restaurante do Demétrio se tramava e se espalhava. Uma revolução cultural contra uma sociedade de robôs. Alguém declamava um discurso célere.

MARX, MAO, MARCUSE. PULAMOS O MURO DO COLÉGIO CANADÁ, EU E O THOMÉZINHO, PARA CHAMAR PARA A PALESTRA DE SÉRGIO SÉRVULO, PROIBIDA PELO DIRETOR EDÉSIO. CLUBE DE CINEMA DE SANTOS, 20 ANOS EM 1968. SOU MARXISTA DA TENDÊNCIA GROUXO, ESCREVE PARIS.

No Brasil, em 1968, houve mais de um herói, um negador da hierarquia trágica. Foi Sérgio. O caso Pára-Sar, quando os militares fascistas ordenaram a ele, comandante dessa equipe de salvamento da Aeronáutica, bombardear civis e provocar milhares de mortos, para justificar o estado-de-sítio. Jogando no mar de um avião lotado de vermelhos, então, comunistas como o arcebispo de Olinda e Recife, D. Helder Câmara e o ex-presidente JK.

Sérgio disse não, não aceitou matar. Tinha só 37 anos e pagou por isso até o fim da vida, em 1994. O chefe de gabinete do Ministro, que deu essa ordem, morreu um dia destes: chamava-se João Paulo Burnier. Quase chegamos ao nazi-fascismo; foi assim que Hitler assumiu o poder. Mas Sérgio impediu, não aceitou a determinação hierárquica. Era o início da Operação Condor. 1968 fez gente assim, heróica, consciente, alerta, ansiosa por fazer história.
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QUANDO O DEDO MOSTRA A LUA, O IMBECIL OLHA O DEDO
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No Peru, o nacionalismo explode no golpe do general Alvarado, que derruba Belaunde Terry. Aqui, o general nacionalista e anticomunista radical, Albuquerque Lima, tenta se impor como sucessor de Costa e Silva, o general de então, que sucedera Castelo Branco. Fracassaria: os titulares do golpe militar estavam em Washington, financiando o IBAD – o Instituto Brasileiro de Ação Democrática parte de um plano global para conter o avanço das esquerdas na América Latina.
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1968: Desabotoe o cérebro tantas vezes quanto a braguilha (Teatro Orfeon)
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Em Santos, trouxemos o censurado Plínio Marcos para apresentar a peça Dois perdidos numa noite suja, no Coliseu, um teatro antigo na Praça José Bonifácio, proibida pela censura. O dinheiro arrecadado iria para o Congresso da UNE. A prisão vem na saída, tentamos virar o carro da Polícia Federal, na Brás Cubas, que trancafiou Plínio. Alguém sai de revólver de dentro do fusca e desistimos, mas fomos atrás, zoando na porta da Polícia Federal a noite toda por este Plínio do porto, que se foi dia destes, pela liberdade.
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Abaixo o realismo socialista! Viva o surrealismo!
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Santos perde seus bondes abertos, em janeiro de 1968, parte de seus heróicos vínculos com seu passado libertário. Logo ficaríamos sem todos os elétricos sobre trilhos, para gozo das indústrias de petróleo e borracha, deixando saudades. Em outubro acontece o Congresso da UNE, para o qual levantamos fundos aqui, dia 12, em Ibiúna - ocupado pelo Exército e com 1.240 presos. Entre lideranças nacionais, o nosso santista Omar Laino. Elegem a luta armada como método de luta, a radicalização é a senha, contra a ditadura e pelo socialismo. Nossa pauta é o amor comum.
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Um pensar que estanca é um pensar que apodrece. Reformas: clorofórmio
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Rachamos em 1968, éramos linha chinesa, maoístas. Ou trotskistas, querendo ser libertários - anarco-sindicalistas hoje, na ideologia que Catalán já professava. No Brasil, a Marcha dos cem mil, a 26 de junho, no Rio de Janeiro – em repúdio ao assassinato de Edson Luiz de Lima Souto, 16 anos, pela Polícia Militar – é um orgasmo dessa geração, angustiante.

Dirceu com a camisa de Edson em sangue. O coletivo é o principal; abaixo a ideologia pequeno-burguesa ! Só os mais pobres iam morrer no Vietnã, no genocídio da juventude americana para defender interesses que não eram os seus. Dos 234 filhos de senadores e deputados em idade de prestar o serviço militar, apenas 28 se alistaram, só um saiu ferido.
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MENOR DE 21 ANOS, EIS A SUA CÉDULA DE VOTAÇÃO (UM PARALELEPÍPEDO)
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Tempos de grandes assembléias no Centro dos Estudantes, o segurança era o fortão Wagner Lino Alves, que seria deputado estadual do PT em 94 a 98. Era um dos 15 que foram para a LSN junto com Lula, em 80. Engajou-se em São Bernardo, nestes anos, para onde foi depois que acabou o sonho. Era minha dupla de panfletagem, grande pessoa. Foi o curto verão da liberdade, em 1968 - o da retomada do Centro dos Estudantes em agosto e seu fechamento em dezembro.

No processo judicial de fechamento do CES, alegam, como motivo, minha prisão – a primeira! - e a apreensão do material subversivo. Os travesseiros! Ora direis ouvir estrelas... Na França, o ano termina com a vitoriosa vitória de Charles De Gaulle, surge o terrorismo anti-sistema da Itália e na Alemanha, semente das Brigadas Vermelhas e do Baader-Meinhof.
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EXAGERAR JÁ É UM COMEÇO DE INVENÇÃO (LETRAS/PARIS)
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Voltamos meio confusos do acidente de 1969, mas não o suficiente para não tentar retomar 1968. O Brasil em 1970 era opressivo, a Copa do Mundo, o Ame-o ou deixe-o ufanista da ditadura - o último a sair apague a luz do aeroporto, ironizávamos. Uso um paletó de lã a 40 graus para esconder o jornal clandestino Resistência - e distribuí-lo. Escrevo para entender : onde foi parar 1968 ? Flash-back rápido em Nadir : voltaria a vê-la, agora, casada e com filhos.

O universo é outro, mas somos passadólogos, diria H.Leal, exímio declamador hoje nos palcos de São Pedro. Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera, saltava-lhe sempre um Dos Anjos da garganta lubrificada à álcool. Uns morreram, outros dispersaram, em quase todos se perdeu o sentido solidário – aniquilados, pouca memória. Vale o resgate.
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É PROIBIDO PROIBIR
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Para Marcuse, o filósofo de 1968, o motor desse assalto aos céus de há três décadas foi o erotismo - a luta da vida (Eros) contra a morte (Thanatos), os deuses da mitologia grega, na elaboração Marx/Freud da sociedade de consumo.

Uma luta canalizada no impulso biológico da juventude contra o caminho da morte, apontado pela irracionalidade da sociedade industrial. Mascarada de racional, essa sociedade cria uma sociedade sem oposição, uma unanimidade condicionada, incapaz de aceitar qualquer manifestação livre. Mas a juventude é a explosão da vida - Eros - e acontece a rebelião em 1968, o flash-back secular.

Maio, 1968. A linguagem é a do cinema, aqui e no mundo. E na pátria dos irmãos Lumiére e da sétima arte, De Gaulle tenta atrelar a criação cinematográfica ao estado e ao regime. Substituindo a unanimidade de Henry Langlois na direção da Cinemateca Francesa, em fevereiro – reposto no cargo em 2 de maio, após uma rebelião. Foi uma pré-revolução de 1968, seu despertar. É este o flash-back da matiz de 1968, da busca da liberdade.
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Amai-vos uns em cima dos outros
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Na atual fase destrutiva e regressiva da sociedade humana, em que uma globalização que substitui o internacionalismo sonhado outrora impõe a crença no deus-mercado - que vomita empregos, conquistas sociais e seres humanos -, 1968 fez o alerta.

Modernamente, as prerrogativas humanas são usurpadas por atores sociais poderosos, que escapam do controle popular e atuam no cenário do chamado poder econômico. Conspurcando acintosa e impunemente, na fumaça falaciosa e venenosa da globalização, as consciências. Tal como os ingleses faziam com a China no século passado, enchendo-a de ópio. Quando os chineses protestaram, tomaram-lhe Hong-Kong. Vivemos o 1984 de Orwel.

Este século termina mostrando, como única possibilidade de sobrevivência da espécie humana, a superação do sistema vertical, autoritário e banal. Que, regenerando Rousseau, estabeleça um novo contrato social, nos limites deixados por Jean-Paul Marat - que ante o temor da burguesia em seu direito à propriedade, assegurou a mais sagrada: a vida. Salvaram-se todos os que ficaram, nunca tão vivos como dantes. Fica 1968 encarnado em mim, ad eternum. Urge resgatar essa memória, que aqui vai por um E-mail, em flash-back.
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Seja jovem, cale a boca. 1968 disse não.
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O FIM DA HISTÓRIA
(continua em 2068)
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